I
Eu já conhecia Brasília
antes de me mudar. Na verdade, por conta de um evento acadêmico, tive a
oportunidade de estar na cidade cerca de um mês antes de minha mudança, já
sabendo que dali a pouco tempo eu voltaria em definitivo. Essa consciência
deixou a viagem um pouco pesada. Eu me recordo de ter achado as distâncias e as
construções, igualmente monumentais, elementos opressores da capital federal.
É bem conhecida aquela
crônica de Clarice Lispector na qual se diz de Brasília ser “[t]ão artificial como devia ter sido o mundo quando foi
criado”. Minha percepção inicial foi algo nesse sentido. Hoje, porém, após
quase dois anos vivendo aqui, pode-se dizer que a artificialidade que eu
atribuo à cidade tenha de certa forma mudado de natureza na minha cabeça.
Digo isso
porque a imagem de quem vem de cidades que não passaram pelo planejamento do
seu espaço como um evento decisivo, concentrado no tempo da fundação (prefiro
dizer isso a simplesmente falar em “cidades não planejadas” – planejadas todas
são, embora de maneira mais ou menos difusa historicamente) tem em mente essa
artificialidade expressada por Clarice, que está ligada ao contexto da fundação
recente.
Nessa
perspectiva, é artificial porque é nova. A visão de uma cidade já inteiramente
construída antes de plenamente ocupada deve parecer realmente o extremo da
forçação de barra. Deve parecer um mundo que, de tão recente, ainda nem houve
tempo para que os ventos se espalhassem por sobre toda a sua superfície,
havendo vácuos na atmosfera. Ou, como diria Lispector, “[a] hera ainda não
cresceu”.
Não me
lembrava dessa frase específica quando, caminhando para o trabalho, comecei a
reparar no musgo que crescia nas frestas do pavimento. Imediatamente me ocorreu
que sim, a cidade tinha algo de artificial, mas não (ou pelo menos não mais) no
sentido daquilo que é transposto como uma ideia pronta da mente do projetista
para a realidade. Em vez disso, seria – para usar uma metáfora – como um
daqueles navios que são afundados para servir de suporte ao crescimento de
corais, crustáceos e outras formas de vida: algo que não estava lá, porém, uma
vez ali pousado, é tomado de vida.
Falo de
vida aqui não apenas no sentido estritamente biológico do musgo ou da
fantástica variedade ornitológica com a qual me deparo diariamente em plena
Esplanada dos Ministérios; mas da própria vida humana também, pela gente de
todo tipo que circula diariamente, e que poderia ser encontrada muito bem em
qualquer outra grande cidade brasileira.

Ou ainda
pela sensação de déjà-vu que eu às
vezes tenho, especialmente no comércio local de certas quadras da Asa Norte,
cujos tijolos vazados e a pintura manchada pelas intempéries criam, em pleno
Plano Piloto, um “microclima” local que me remete ao começo dos anos 90 – em
outro lugar, em um tempo no qual tijolos vazados e rastro de chuva nas paredes
já denotavam um velho prédio comercial. Um prédio velho na capital federal é o
eco de um prédio velho da minha infância no interior, sensação que nunca
experimentei em São Paulo, pródiga de prédios velhos.
II
Um
exercício de livre associação.
Numa
passagem de Visão do Paraíso, Sérgio
Buarque de Holanda compara a colonização da América por espanhóis e portugueses
desde a perspectiva do método de traçado urbanístico adotado por uns e por
outros. As cidades fundadas pelos espanhóis representariam o triunfo da vontade
humana sobre a natureza, uma vez que o traço determinado pelo colonizador se
impôs sobre a paisagem, a despeito das dificuldades do relevo; ao passo que as
cidades fundadas pelos portugueses se amoldam preguiçosamente a todos os
acidentes do relevo preexistente.
Triunfar em
vez de amoldar-se. Por trás do planejamento e construção de toda cidade há um
ato de violência: rasgar o solo, interromper a natureza e resistir à entropia.
Não à toa, na narrativa bíblica, o primeiro homicida, Caim, é também o primeiro
a fundar uma cidade, após ser expulso do Éden. Mais que homicida, fratricida,
como Rômulo, que mata o irmão enquanto traça os limites dentro dos quais
construirá a urbs.
Urbs, assim como town, exprime na origem algo como um
espaço circular, em torno de um centro. Em seus escritos políticos, Platão e
Aristóteles lidam, entre outras questões, com a disposição das terras privadas
das famílias em relação ao centro como um problema político: apenas a
equidistância das casas em relação ao centro conferiria justiça à pólis.
Embora eu obviamente não esteja motivado pela mesma preocupação da filosofia política antiga, sinto certo estranhamento com o fato de não haver aqui um centro da cidade propriamente dito. Heidegger diz que pólis está ligada à ideia de “polo”. Desprovida de um centro, seria a cidade “apolar”?
Embora eu obviamente não esteja motivado pela mesma preocupação da filosofia política antiga, sinto certo estranhamento com o fato de não haver aqui um centro da cidade propriamente dito. Heidegger diz que pólis está ligada à ideia de “polo”. Desprovida de um centro, seria a cidade “apolar”?
Ainda nesse
sentido, Heidegger vê no nome de Apolo aquele que é “a-polo”, “desprovido de
polaridades”. De certa forma, portanto, a cidade, por ser apolar, seria
apolínea. É característica do apolíneo a medida, o limite, a forma de perfeição
simétrica que serve, na verdade, como uma cortina estética que se
individualiza, separando-se da realidade circundante. Ao apolíneo Nietzsche
contrapõe o dionisíaco: a contradição, a afirmação da realidade e da
contingência; consequentemente, a fusão, o esmaecimento e suspensão da
individualidade artificialmente concebida, tendo na Tragédia sua máxima
expressão.
A cortina estética das formas de Brasília está em exprimir uma ideia de moderno, de futuro. Mas tal visão do futuro foi formulada em um dado momento do passado. Sempre considerei essa cristalização de um futuro do passado uma distopia, não no sentido negativo usualmente atribuído ao termo, mas como um aspecto encantadoramente trágico do planejamento da cidade.
A cortina estética das formas de Brasília está em exprimir uma ideia de moderno, de futuro. Mas tal visão do futuro foi formulada em um dado momento do passado. Sempre considerei essa cristalização de um futuro do passado uma distopia, não no sentido negativo usualmente atribuído ao termo, mas como um aspecto encantadoramente trágico do planejamento da cidade.