domingo, 31 de maio de 2015

Brasília: futuro como reminiscência

I

Eu já conhecia Brasília antes de me mudar. Na verdade, por conta de um evento acadêmico, tive a oportunidade de estar na cidade cerca de um mês antes de minha mudança, já sabendo que dali a pouco tempo eu voltaria em definitivo. Essa consciência deixou a viagem um pouco pesada. Eu me recordo de ter achado as distâncias e as construções, igualmente monumentais, elementos opressores da capital federal.

É bem conhecida aquela crônica de Clarice Lispector na qual se diz de Brasília ser “[t]ão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado”. Minha percepção inicial foi algo nesse sentido. Hoje, porém, após quase dois anos vivendo aqui, pode-se dizer que a artificialidade que eu atribuo à cidade tenha de certa forma mudado de natureza na minha cabeça.

Digo isso porque a imagem de quem vem de cidades que não passaram pelo planejamento do seu espaço como um evento decisivo, concentrado no tempo da fundação (prefiro dizer isso a simplesmente falar em “cidades não planejadas” – planejadas todas são, embora de maneira mais ou menos difusa historicamente) tem em mente essa artificialidade expressada por Clarice, que está ligada ao contexto da fundação recente.

Nessa perspectiva, é artificial porque é nova. A visão de uma cidade já inteiramente construída antes de plenamente ocupada deve parecer realmente o extremo da forçação de barra. Deve parecer um mundo que, de tão recente, ainda nem houve tempo para que os ventos se espalhassem por sobre toda a sua superfície, havendo vácuos na atmosfera. Ou, como diria Lispector, “[a] hera ainda não cresceu”.

Não me lembrava dessa frase específica quando, caminhando para o trabalho, comecei a reparar no musgo que crescia nas frestas do pavimento. Imediatamente me ocorreu que sim, a cidade tinha algo de artificial, mas não (ou pelo menos não mais) no sentido daquilo que é transposto como uma ideia pronta da mente do projetista para a realidade. Em vez disso, seria – para usar uma metáfora – como um daqueles navios que são afundados para servir de suporte ao crescimento de corais, crustáceos e outras formas de vida: algo que não estava lá, porém, uma vez ali pousado, é tomado de vida.

Falo de vida aqui não apenas no sentido estritamente biológico do musgo ou da fantástica variedade ornitológica com a qual me deparo diariamente em plena Esplanada dos Ministérios; mas da própria vida humana também, pela gente de todo tipo que circula diariamente, e que poderia ser encontrada muito bem em qualquer outra grande cidade brasileira.
Exibindo 20150123_185855.jpg

Ou ainda pela sensação de déjà-vu que eu às vezes tenho, especialmente no comércio local de certas quadras da Asa Norte, cujos tijolos vazados e a pintura manchada pelas intempéries criam, em pleno Plano Piloto, um “microclima” local que me remete ao começo dos anos 90 – em outro lugar, em um tempo no qual tijolos vazados e rastro de chuva nas paredes já denotavam um velho prédio comercial. Um prédio velho na capital federal é o eco de um prédio velho da minha infância no interior, sensação que nunca experimentei em São Paulo, pródiga de prédios velhos.


II

Um exercício de livre associação.

Numa passagem de Visão do Paraíso, Sérgio Buarque de Holanda compara a colonização da América por espanhóis e portugueses desde a perspectiva do método de traçado urbanístico adotado por uns e por outros. As cidades fundadas pelos espanhóis representariam o triunfo da vontade humana sobre a natureza, uma vez que o traço determinado pelo colonizador se impôs sobre a paisagem, a despeito das dificuldades do relevo; ao passo que as cidades fundadas pelos portugueses se amoldam preguiçosamente a todos os acidentes do relevo preexistente.

Triunfar em vez de amoldar-se. Por trás do planejamento e construção de toda cidade há um ato de violência: rasgar o solo, interromper a natureza e resistir à entropia. Não à toa, na narrativa bíblica, o primeiro homicida, Caim, é também o primeiro a fundar uma cidade, após ser expulso do Éden. Mais que homicida, fratricida, como Rômulo, que mata o irmão enquanto traça os limites dentro dos quais construirá a urbs.

Urbs, assim como town, exprime na origem algo como um espaço circular, em torno de um centro. Em seus escritos políticos, Platão e Aristóteles lidam, entre outras questões, com a disposição das terras privadas das famílias em relação ao centro como um problema político: apenas a equidistância das casas em relação ao centro conferiria justiça à pólis.

Embora eu obviamente não esteja motivado pela mesma preocupação da filosofia política antiga, sinto certo estranhamento com o fato de não haver aqui um centro da cidade propriamente dito. Heidegger diz que pólis está ligada à ideia de “polo”. Desprovida de um centro, seria a cidade “apolar”?

Ainda nesse sentido, Heidegger vê no nome de Apolo aquele que é “a-polo”, “desprovido de polaridades”. De certa forma, portanto, a cidade, por ser apolar, seria apolínea. É característica do apolíneo a medida, o limite, a forma de perfeição simétrica que serve, na verdade, como uma cortina estética que se individualiza, separando-se da realidade circundante. Ao apolíneo Nietzsche contrapõe o dionisíaco: a contradição, a afirmação da realidade e da contingência; consequentemente, a fusão, o esmaecimento e suspensão da individualidade artificialmente concebida, tendo na Tragédia sua máxima expressão. 

A cortina estética das formas de Brasília está em exprimir uma ideia de moderno, de futuro. Mas tal visão do futuro foi formulada em um dado momento do passado. Sempre considerei essa cristalização de um futuro do passado uma distopia, não no sentido negativo usualmente atribuído ao termo, mas como um aspecto encantadoramente trágico do planejamento da cidade.

sábado, 18 de abril de 2015

Anedota cotidiana

(Eis que hoje me deparei com uma série de textos que escrevi entre 2006 e 2009. A maior parte deles já não se aproveita para trazer a público - sou impedido de fazê-lo por um pouco de acréscimo que tive em amadurecimento e senso estilístico desde então. Mas essa pequena anedota do meu cotidiano de seis ou sete anos atrás merece a - vexatória - lembrança).


L. digitava freneticamente. Diante de si, a mulher relatava todos os sofrimentos pelos quais vinha passando, o que fazia o jovem se sentir um tanto pesado. Mas ele não podia parar, ainda havia outras pessoas para atender, e naquele dia ele não poderia de modo algum sair de lá depois do horário...

Mas a mulher de meia idade que estava com ele na sala olhava fixamente para L., como se houvesse outra coisa que chamasse sua atenção, e que, por um instante, se deslocasse da realidade que a levou até ali. Isso perturbou L. Ele não gostava de ser estudado ou observado. Estava ali para fazer a sua parte, apenas isso, repelindo qualquer coisa que pudesse desviá-lo de suas funções.

- Você é advogado?
- Estagiário (bom, todos sempre perguntam... vai ver um advogado passa mais segurança mesmo... não que eu necessariamente concorde)

Após algum tempo...

- Desculpe-me, mas...
- Sim?
- Você tem mãos muito bonitas.

L. continuou escrevendo, apenas um sorriso, não daria muita importância àquilo, pois tinha pressa.

- Sabe de uma coisa?
- O quê?
- Desde que eu estava aguardando lá fora e te vi chegar, percebi que você se parece muito com meu irmão, quando ele era mais jovem, sabe...

L. esboçou o mesmo sorriso de antes. A mulher se perdeu em lembranças, pensando alto....Voltou-se para L., fitou-o por mais um bom tempo, em seguida dizendo:

- Olha, é muito charmoso, viu?

L. parou. A mulher fitava-o fixamente. Sem saber o que dizer, esboçou:

- Hum...obrigado!

E voltou a digitar

E a mulher:


- eu falava de meu irmão.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Da luminescência em política

Uma das questões "polêmicas" do ano que se inicia foi a roupa usada pela Presidenta Dilma Rousseff no dia da posse. Não foram poucas as vozes que se esforçaram por lembrar o quanto há de machista e de superficial nesse tipo de discussão. Sem dúvida.

O problema é que, além da Dilma, a nova Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, também ficou marcada na mídia e nos hashtags da vida pelo "figurino" usado na ocasião, sobre o qual o adjetivo menos comprometedor que eu li foi "destoante"; e não demorou muito para que se frisasse o suposto caráter "temático" da cor escolhida.

Muita gente que conheço argumentou - com toda a razão - que a Dilma foi eleita Presidenta, e não Miss Universo, de modo que o que deve ser levado em consideração são as qualidades inerentes ao cargo, e não sua beleza/elegância/atratividade, não se devendo de forma alguma subordinar ou reduzir aquelas a estas. 

Pois bem, qual não foi a minha decepção ao ver, apenas com horas de diferença, algumas dessas mesmas pessoas fazerem chacota com o vestido esquisito da Kátia Abreu (é bom que se diga: eu, inclusive, num primeiro momento).

Sério mesmo que vocês não veem que é, no fundo (e nem precisa ir tão fundo), o mesmo problema?

"Ah, não é a mesma coisa, pois nós zuamos a Kátia Abreu porque não a consideramos legítima/digna de estar ali". Bom, muita gente pensa o mesmo da Dilma. Não só entre uma maioria de detratores estéticos, mas inclusive na esquerda e entre aqueles que sabiamente se abstiveram de esculachá-la pela roupa.

Não creio que a Kátia Abreu precise muito de quem saia em sua defesa; e não pretendo fazer nada disso. Mas esse contraste me incomodou muito enquanto revelador de uma tremenda incoerência no discurso. Não me incomodei pelo ataque à figura da ministra, mas pelos sinais trocados com tanta facilidade por quem criticou. E como eu mesmo caí na cilada desse riso fácil, o incômodo só fez aumentar.

Talvez a fábula esteja errada: os inteligentes não dão a mínima pra ver a roupa do rei.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Justiça e justiçamentos

Estou escrevendo meio que de improviso, inclusive resgatando algumas coisas de memória da minha dissertação, porque acho que no dia de hoje seria necessário esclarecer uma importante dicotomia entre tipos jurídicos ideais. Lá vai:

Creio que uma das maiores conquistas civilizacionais humanas seja a transição de uma concepção de sistema jurídico que eu chamarei aqui exclusivo para uma compreensão inclusiva dos sujeitos em relação ao direito.

Ao dizer que determinado ordenamento jurídico é exclusivo, estou pensando em um sistema no qual o sujeito que comete um ilícito é eliminado da sociedade. A sanção jurídica aplicável corresponde, de modo geral, a alguma forma de se expelir o indivíduo do sistema, retirando-lhe a qualidade de sujeito de direito.

É o exemplo clássico da tribo que expulsa o pecador para o deserto ou para a selva:


“Caramba! Ele tocou o alimento sacrificado ao Bode de Ouro! Joguem esse imundo no deserto!”


Excluído do grupo, isolado no ambiente hostil, o violador está invariavelmente destinado à morte. Aliás, a pena de morte é por si outro exemplo óbvio, embora lembrado de forma surpreendentemente rara ao descrever esse tipo de sistema.

Isso ajuda a compreender também a natureza de instituições como a do homo sacer, entre os romanos. Absolutamente excluído do convívio com outros seres humanos, o homo sacer vagava sem rumo, sendo inclusive lícito a qualquer um matá-lo sem que isso implicasse qualquer punição.

Sacer, que traduzimos por “sagrado”, é tudo aquilo que está no limite entre o mundo terreno e o santo. Santidade está etimologicamente ligada a sanctio, “sanção”, de modo que as coisas santas na origem são aquelas às quais o direito romano ligava algum tipo de isolamento das coisas terrenas. Não à toa, os túmulos e os muros das cidades eram considerados santos pelo direito, pois servem para isolar coisas magicamente. Cientes da derivação dos termos, podemos entender o “homem sagrado” como um “homem isolado, interditado”, por causa de uma conduta sancionada. Não por acaso também o guloso que comeu as frutas do Bode-deus foi chamado acima de "imundo", pois o imundo é i-mundo, a negação do mundo, o que não tem lugar no convívio.

Por outro lado, o modelo que denomino inclusivo, típico do direito ocidental moderno, é aquele no qual o violador não é excluído do sistema. Ainda que condenado e isolado do convívio dos outros por meio do encarceramento, ele não deixa de ser sujeito de direito em relação àquele ordenamento.

Obviamente que estou descrevendo tipos ideais, sem nenhuma pretensão positivista de que eles tenham se sucedido mecânica e totalmente um ao outro. Afinal, a persistência da pena de morte (ela, mais uma vez) em vários ordenamentos nacionais está aí para demonstrar a dificuldade de se encontrar sistemas puramente inclusivos, por assim dizer. De qualquer modo, a situação predominante em teoria nos ordenamentos contemporâneos é a manutenção da inclusão, cada vez mais até mesmo, pasme, no tocante às situações beligerantes entre Estados.

Afinal de contas, por mais que isso de fato aconteça, sair torturando e matando presos nas delegacias e penitenciárias não é uma situação que se justifique, do ponto de vista do sistema vigente. De qualquer modo, a consciência quanto à insustentabilidade dessa situação se traduz, conforme estou tentando demonstrar, em um ganho civilizacional inestimável.

Impedir o Estado de anular física e ou simbolicamente os indivíduos corresponde a uma garantia absolutamente fundamental, que protege não apenas quem comete atos ilícitos, mas qualquer pessoa que se veja repentinamente sujeita ao arbítrio de agentes estatais ou de outros cidadãos que eventualmente se creiam respaldados pelo direito, pela moral, pelo espírito do povo ou qualquer coisa que o valha. Defender qualquer retrocesso em relação a isso equivale a dar um cheque em branco sobre a vida de todos os indivíduos da coletividade – inclusive, adivinhe só, de si mesmo. Não sei quanto a vocês, podem me chamar de ingênuo o quanto quiserem, mas eu prefiro não correr o risco de ser eliminado pelo Estado - culpado ou não... só acho que, em vista disso, os mesmos que reclamam tanto da interferência do Estado na sua liberdade individual deveriam ser os primeiros a defender a prevalência dos Direitos Humanos sobre a razão de Estado ou qualquer noção vaga de bem comum.

Muito mais do que qualquer distinção entre cidadãos de bem e bandidos, busca-se assim afirmar a condição jurídica de cidadão em lugar da de súdito.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Tempus fugit

I

Ao longo de minha vida até aqui, foram várias as ocasiões em que comecei e tentei manter diários, apenas para constatar, invariavelmente, minha completa incapacidade de dar continuidade a esse tipo de registro. De modo geral, pode-se dizer que meu fracasso foi devido ora ao impiedoso contraste entre uma rotina absolutamente tediosa e a vontade obstinada de estabelecer relatos minuciosos; ora ao quase-clichê expresso pela dificuldade em se achar tempo para escrever sobre uma sucessão vibrante e enriquecedora de novos acontecimentos quando se está ocupado em vivê-los.

Diante disso, passei a crer que apenas com algum distanciamento em relação aos fatos seria possível superar esse impasse, de modo a conseguir abstrair dos registros a estéril sucessão da rotina e, ao mesmo tempo, valorar os eventos literalmente dignos de nota naquilo que tivessem não só de intensos, mas de pedagógicos, dimensão dificilmente mensurável no calor dos acontecimentos, mas de inegável utilidade até mesmo de um ponto de vista, digamos, estratégico. 

Com isso em mente, passei a registrar eventos já há algum tempo passados, em vez de me centrar no relato imediato do cotidiano. Até agora, vem dando certo.

No entanto, à medida que esse exercício tem me levado cada vez mais longe em meu próprio passado, tenho sido surpreendido pela constatação de que tenho resgatado mais os pequenos detalhes das pessoas e dos lugares e coisas que as intermediavam do que propriamente "acontecimentos" marcantes.

Enquanto meditava sobre as causas e implicações daquela constatação, vieram-me às mãos, por caminhos diversos, duas obras.

A primeira, Infância, livro de Graciliano Ramos, de leitura ainda em curso. Não vemos aqui um simples relato autobiográfico, mas o registro dos processos mentais de recuperação da memória, em suas idas e vindas, por meio das quais as lembranças são gradualmente trazidas à tona, em fragmentos, como na passagem em que acompanhamos, ao longo de algumas páginas, o esforço vacilante do narrador para recuperar uma estrofe de uma canção infantil; ou na descrição fragmentária do pai como um par de mãos que emanavam uma voz severa. 

A segunda, o brilhante Time after time, livro do filósofo inglês David Wood, que analisa a crise de nossa noção do tempo como uma dimensão universalmente válida e unidirecional, apontando para a coexistência de diversas temporalidades ou diversas maneiras de perceber a passagem do tempo na atualidade.

Ao tratar da vivência individual da passagem do tempo, Wood chama a atenção para o valor terapêutico do ato de narrar a própria existência, pois, ao contarmos os eventos pelos quais passamos, temos a oportunidade de harmonizá-los entre si, assim promovendo uma reorganização afetiva da memória. Criar tal oportunidade de rearranjo coerente das lembranças seria a função principal da psicanálise, já que o desenvolvimento mental não se daria, segundo o autor, pela sucessão ordenada de estágios estanques de maturidade, mas pela sobreposição forçada de tais estágios, sem que cada um deles se resolva de forma conclusiva.

Em resumo, o indivíduo adulto maduro não é aquele que superou sua infantilidade, mas aquele que consegue equilibrar de maneira saudável a mente adulta e as esferas inconclusas da vida infantil e do impulso instintivo.

Não à toa que tantas personagens do cinema, ao se depararem com o sofrimento psíquico presente, vagam perdidas por um passado que não quiseram ou não tiveram chance de elaborar adequadamente até então. Vale mencionar a esse respeito, a meu ver, Morangos silvestres (Ingmar Bergman) e A árvore da vida (Terrence Malick).

Por meio da reelaboração narrativa do passado e da ressignificação da rotina por meio da percepção do presente como um campo aberto de possibilidades, Wood acena para a fragmentação moderna da noção do tempo como uma janela de oportunidade para conferirmos ativamente novos sentidos à existência. De repente, minha reduzida aptidão não apenas para a narrativa autobiográfica, mas para o gênero narrativo em geral, começa a fazer sentido, à luz de certos imobilismos cotidianos.


II

Dito isso, talvez seja útil tentar extrapolar a dificuldade individual.

A forma como cada aspecto da vida é organizado para lidar com a tendência à entropia é que estrutura as diversas formas de perceber o tempo e relatar sua passagem. Como exemplos, temos os ciclos impostos pelo ritmo biológico que rege nosso organismo e o dos demais seres com os quais interagimos; os ciclos astronômicos; a insistência humana em fabricar e manter espaços que não sejam retomados e engolidos pela natureza (as cidades, os campos cultivados), neles fazendo vigorar os ciclos temporais relacionados à política; a música, cuja elaboração se fundamenta em relações temporais...




Mas a percepção newtoniana comum do tempo como algo que flui por igual em todo lugar e em qualquer condição só passa a ser severamente abalada a partir do momento em que a difusão do capitalismo passa a desorganizar a relação da humanidade com os ciclos naturais do tempo por meio da introdução de dimensões como a hora de trabalho, a oposição sucessiva entre dia útil e fim de semana, a hora do almoço, a conjugação entre ciclos de renda e de despesa (salário e aluguel...), a manipulação do tempo de maturação das espécies vivas economicamente úteis, e assim por diante.

Ao mesmo tempo, tem-se o abandono da noção iluminista de progresso, em favor da ideia de superação dialética entre modos de vida. O capitalismo supera o feudalismo; sociedades adentram a pós-modernidade, mesmo que mal tenham experimentado a modernidade; a revolução cultural acarreta, não sem alguma surpresa, o socialismo de mercado. Antes, o progresso era tido como certo, ainda que aos trancos e barrancos. Agora, só os trancos são certos, sem qualquer garantia de que a mudança de paradigma não resulte em desastre.

Em relação ao presente, em que medida é possível ao indivíduo e à sociedade elaborarem algum entendimento de si, em face da multiplicidade de formas do tempo e da posterior desorganização de grande parte delas?

Quanto ao entendimento do passado, até que ponto os esforços de periodização da história humana não se aproximam da sobreposição dos estágios do desenvolvimento psíquico, no sentido de ambos tentarem construir uma narrativa coerente a partir de substratos que não possuem entre si solução de continuidade?

Consequentemente, em que medida se aproximam, enquanto escleroses da capacidade narrativa, o fato de um indivíduo não saber lidar com o tempo biográfico, desenvolvendo neuroses e depressão; e o fato de um grupo social não conseguir dar conta adequadamente de sua própria história, passando a inventar explicações fundadas em desvios totalitários ou revisionistas?

domingo, 16 de novembro de 2014

Do assombro (notas sobre uma tradução)

Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀνθρώπου δεινότερον πέλει 

Muitos são os assombros; nenhum, porém, mais assombroso que o ser humano.
(Antígona, v. 332)



O célebre verso da Antígona, tragédia escrita pelo poeta ateniense Sófocles, foi uma das primeiras coisas que me veio à mente ao ver as impressionantes imagens da superfície do cometa 67/P Churyumov-Gerasimenko enviadas pelo pequeno robô Phylae (imagens abaixo, obtidas do site do jornal Corriere della Sera).

Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli

Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli


Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli




Esse verso não me ocorreu por conta do caráter quase fantástico de uma missão que consegue fazer pousar uma peça do tamanho de uma máquina de lavar roupa em um pedaço de pedra de cerca de quatro quilômetros de comprimento, vagando a uma velocidade absurda a mais de 500 milhões de quilômetros de distância da Terra.

Não apenas por isso.

Há uma ambiguidade inerente ao verso, causada pelo uso do termo δεινὰ, que se perde quando este é traduzido usualmente como "maravilhas", "coisas extraordinárias" ou mesmo "portentos". Essas traduções não são as mais adequadas, uma vez que lançam sobre a humanidade caracterizada por aquele termo uma luz indiscutivelmente positiva, mas que ficaria fora de lugar quando contrastada com a visão do corpo celeste, este, sim, muito mais facilmente dito maravilhoso, extraordinário ou portentoso. 

Mas também monstruoso, terrível e assombroso. Daí minha opção por traduzir δεινὰ por "assombros", pois o caráter trágico da humanidade está na dubiedade de seu potencial, e o assombroso é dúbio, remetendo simultaneamente ao que é maravilhoso e terrificante - como um enorme e terrível (deinos) lagarto (sauros).

O ser humano é assombroso - entre outras coisas - por sua capacidade de criar máquinas maravilhosas, movido pela expressão artística e pela busca do conhecimento, e máquinas de matar, instrumentos com os quais mantém sua existência cotidiana ainda, no mais das vezes, mergulhada em miséria, violência e mediocridade. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Cinema japonês

Eu tenho fases meio "temáticas" quando se trata de cinema. Quase sempre assisto a vários filmes do mesmo diretor, por exemplo, até me cansar e embarcar na próxima monomania cinematográfica. Ultimamente mergulhei de cabeça no cinema japonês, do qual já conhecia alguns poucos títulos. 

Neste texto, apresento minhas impressões sobre três filmes não tão conhecidos que eu gostaria de indicar (são três filmes dos quais gostei muito, mas há outros, que deixei de fora dessa lista por serem obras mais famosas, como é o caso de Os sete samurais, de Akira Kurosawa).

1- CHUSHINGURA (Hiroshi Inagaki, 1962). Acho que ainda está em cartaz a versão estrelada por Keanu Reeves para a história dos 47 ronin, os samurai que aguardaram pacientemente por cerca de dois anos para arquitetar e executar a vingança pela morte de seu senhor, forçado por um alto funcionário corrupto do xogunato a cometer seppuku (ou "haraquiri"). Trata-se de uma história real, acontecida entre 1701 e 1703, até hoje considerada a lenda nacional do Japão, graças à extrema lealdade e perseverança dos ronin. Infelizmente, o filme do Reeves, não contente em recontar uma história que já é fantástica sem invencionices, fez o favor de fantasiar e estragar a coisa, introduzindo feiticeiras e monstros via computação gráfica. Para nosso alívio, a Versátil lançou o box Os 47 Ronins, contendo o que considera ser "as três melhores versões da história" (em óbvia alusão ao blockbuster horroroso): três filmes de três diretores japoneses, narrativas fidedignas, filmadas entre as décadas de 1940 e 1960. O terceiro filme é a versão do diretor Hiroshi Inagaki, Chushingura, um épico que me prendeu totalmente ao longo de suas três horas e meia de duração. Além de mostrar a execução paciente do plano de vingança dos samurai sem senhor, é também um ótimo retrato da mentalidade e da cultura da época, para não mencionar que é um filme muito poético e belíssimo em todos os detalhes da recriação do contexto do Japão feudal. 

2- RAN (Akira Kurosawa, 1985): Este eu já conheço faz tempo. Ran não é apenas um dos meus filmes japoneses preferidos, mas um dos meus filmes preferidos na vida. Trata-se de uma versão do Rei Lear, de Shakespeare, que se passa no Japão do século 16: um senhor feudal resolve dividir suas terras entre os três filhos, que passam imediatamente a guerrear entre si pelo poder absoluto; daí por diante, tudo conduz ao caos (que é o significado do título do filme). Ótimo para nos recordar que, por mais que seja estilizada e idealizada na arte, a guerra - e a vida de modo geral - produz, na verdade, cenários os mais repulsivos. Advirto desde já que o final deste filme é o maior tapa na cara cinematográfico que eu já levei. Segue o trailer.



3- BAKUSHÛ (Yasujiro Ozu, 1951). Os dois filmes anteriores muito me interessam, além das histórias apresentadas e dos aspectos estéticos, por serem retratos das artes marciais clássicas do Japão, das quais sou praticante. Mas, para não dizer que eu falei apenas de filmes históricos e de samurai (mas que obviamente não se resumem a isso), apresento este que é o filme por meio do qual eu descobri a obra do diretor Yasujiro Ozu (1903-1963): um drama a respeito de uma típica família japonesa do pós-guerra, deslocada entre tradição e modernidade. A filha, Noriko, tem 28 anos e trabalha como secretária em Tóquio. Para desespero dos pais e do irmão mais velho, ela tem opiniões muito claras sobre o novo papel a ser desempenhado pelas mulheres no Japão moderno; e não demonstra qualquer interesse em se casar, o que abre espaço para uma abordagem contundente - mas também bela, sensível e até mesmo cômica - das relações de gênero na sociedade japonesa da época. Confesso que eu esperava um filme totalmente hermético e hiper-intelectualizado, mas me deparei com uma narrativa simples e incrivelmente honesta e direta. As principais obras de Ozu também foram lançadas em box recentemente. Bakushû recebeu o título em português de Também fomos felizes; em inglês, é chamado Early Summer.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ła łengua de ła faméja

Hoje é aniversário da chegada de meus antepassados maternos ao Brasil (17 de janeiro de 1880). Apenas alguns anos atrás eu obtive esta efeméride, há muito esquecida, por meio de uma visita ao site do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, no qual é possível pesquisar o nome dos membros de cada família e a data de sua chegada ao Brasil.

Alguns elementos da cultura daqueles imigrantes representam parte significativa da minha infância: música típica, culinária e, principalmente, o idioma. Embora o meu avô não tenha se dedicado sistematicamente a ensiná-la aos filhos (nenhum deles chegou a aprender), eu acabei adquirindo desde pequeno grande interesse pela língua vêneta, de tanto ouvi-lo cantar, contar piadas e xingar no idioma, até chegar ao ponto de conseguir manter uma conversação cotidiana com ele, já na adolescência. 

Curiosamente, cresci pensando que o vêneto se tratasse apenas de um dialeto italiano. Meu avô mesmo se refere a ele como "italiano"; assim como os seus falantes no Sul do Brasil, que chamam a sua variante regional de talian. Demorei muito tempo até descobrir que, na verdade, o vêneto é uma língua separada, mais próxima do catalão, e até do francês, do que do próprio italiano.

Após ter evoluído a partir do latim vulgar, o vêneto adquiriu grande prestígio por ser a língua oficial de Veneza, que constituiu, até o século 18, uma poderosa cidade-estado. Tal fato contribuiu para que o vêneto fosse compreendido e empregado, naquela época, em contatos comerciais e políticos em toda a bacia do Mediterrâneo, além de ter se tornado um importante veículo cultural, que compreende desde peças teatrais medievais até um texto astronômico atribuído a Galileu, todos originalmente escritos na língua.

Com o declínio do poderio da República de Veneza, o vêneto passa a ser progressivamente suplantado pelo dialeto da Toscana, idioma em que Dante escrevera a Divina Comédia; e que viria a se tornar a base da língua italiana atual.

Felizmente, o vêneto se manteve vivo a despeito da derrocada política veneziana. Apesar de seu uso e transmissão estarem em risco na própria Itália, o idioma se perpetuou com os imigrantes que se espalharam pelo mundo, por lugares que incluem o Espírito Santo (onde também se fala outra língua europeia ameaçada, o pomerano) e os estados da região Sul. Ao utilizar sua língua para expressar a experiência de vida no meio rural brasileiro e falante de português, os imigrantes do norte da Itália proporcionaram ao vêneto uma vitalidade renovada, dotada de inúmeras novas possibilidades; e contribuíram para a ainda tão subestimada diversidade linguística do Brasil.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fragmentos trágicos: Ingmar Bergman e Woody Allen

Hannah e suas irmãs, de Woody Allen, foi o último filme que assisti em 2013. Sem querer adiantar muita coisa da trama, basta dizer que esta se centra no personagem de Allen, Mickey, produtor de TV hipocondríaco e obcecado pela morte, e em Elliot, interpretado por Michael Caine (eu demorei muito tempo até me tocar que era o Alfred dos filmes de Batman do Nolan), marido da Hannah do título (Mia Farrow), mas atraído por uma de suas irmãs, Lee (Barbara Hershey).

Uma das minhas passagens preferidas neste filme é protagonizada pelo companheiro de Lee, Frederick,  um ranzinza pintor europeu interpretado por Max von Sydow, que não consegue sequer reclamar da programação da TV sem iniciar um verdadeiro libelo contra a cultura de massa. O monólogo, de uma crítica mordaz e sutil, merece a transcrição (grifei):

"You missed a very dull TV show about Auschwitz. More gruesome film clips, and more puzzled intellectuals declaring their mystification over the systematic murder of millions. The reason why they could never answer the question, 'How could it possibly happen?' is that it's the wrong question. Given what people are, the question is 'Why doesn't it happen more often?' Of course it does, in subtler form... It's been ages since I sat in front of the TV, just changing channels to find something. You see the whole culture - Nazis, deodorant salesman, wrestlers, beauty contests, the talk show. Can you imagine the level of a mind that watches wrestling, hmm? But the worst are the fundamentalist preachers, third-rate con men, telling the poor suckers that watch them that they speak for Jesus and to please send in money. Money, money, money! If Jesus came back and saw what's going on in his name, he'd never stop throwing up."

Obviamente, a escolha de von Sydow para este papel não é gratuita. Tornado célebre por suas participações nos filmes de Ingmar Bergman, especialmente como o cavaleiro Antonius Block em O sétimo selo, sua atuação remete inevitavelmente à admiração de Allen pela obra do diretor sueco.

Já que Bergman era o diretor favorito de Allen, eu gosto de pensar (ou me gabar, talvez) que o fato de justamente estes dois serem meus diretores preferidos revele alguma consistência no meu próprio gosto por cinema. Consistência nunca superada, é claro, por aquela existente entre Bergman e Tarkovski, que citavam-se mutuamente quando perguntados sobre qual seria seu diretor preferido.

A obra de Bergman lida com dois temas centrais, que podem ser vagamente separados em torno de duas fases. A primeira, coincidente com o início da era nuclear e da guerra fria, se concentra em questionamentos existenciais, marcados pela influência da filosofia de Kierkegaard e de Sartre. A segunda fase, a partir de meados dos anos 60, é mais voltada para a constatação da impossibilidade de comunicação nos relacionamentos humanos. São da primeira fase filmes como O sétimo selo, Morangos silvestres e Crise (primeiro filme do diretor); e da segunda, Cenas de um casamento e Persona. Qualquer das duas fases justifica o que se diz sobre a Escandinávia ser o "calabouço existencial da Europa". 

Persona é o filme de Bergman em que a incomunicabilidade humana é levada ao extremo da literalidade, na imagem da personagem da atriz de teatro (interpretada por Liv Ullmann) que sofre - ou simula - um colapso nervoso e deixa de falar. É muito significativo que a atriz fique muda enquanto encena a tragédia de Electra, de Sófocles, já que a Electra do mito reage a tudo passionalmente, a ponto de incitar o irmão a matar a mãe, enquanto a atriz muda é sua antípoda: uma pessoa emocionalmente fria, que por medo se fecha às pessoas pelo silêncio e "mata" o filho pequeno, rejeitando-o.

Ao herdar estes temas de seu ídolo, Woody Allen consegue manejá-los, muitas vezes, com excelência, sobretudo a partir de Annie Hall, ManhattanInteriores, Hannah e suas irmãs e Crimes e pecados. No primeiro, a linearidade temporal é rompida para permitir levar simultaneamente ambas as questões; nos dois últimos, Allen cinge a história em duas narrativas paralelas - uma cômica e outra dramática, em torno das quais distribui aqueles temas. 

Por exemplo, em Hannah e suas irmãs: o perigoso impulso de Elliot (dramático) em relação à cunhada ; e a solidão e o niilismo do hipocondríaco Mickey (cômico), que, às voltas com a expectativa da morte, passa de judeu a católico e Hare Krishna, em busca de um sentido para a vida, sobre o qual tampouco encontra qualquer pista na obra dos filósofos, cujas soluções para a própria vida são postas em questão (afinal, "Sócrates molestava jovenzinhos gregos").

É justamente essa dúvida metafísica, o desconforto causado pelo "silêncio de Deus", que permeia a busca existencial do cavaleiro em O sétimo selo: enquanto as pessoas rezam e se penitenciam por causa da chegada da peste negra à Suécia, Antonius tem dúvidas sobre a existência de Deus (contraponto semelhante acontece em Morangos silvestres: o professor idoso recapitula sua existência em busca de sentido e perdão, enquanto os jovens chegam às vias de fato ao discutir sobre a existência de Deus). 

Antonius quer acreditar em Deus, mas a única entidade sobrenatural com quem consegue dialogar (desafiando-a para uma partida de xadrez, com o que espera obter algumas respostas) é a Morte, que por sua vez se contenta em fazer o que tem que fazer - matar -mostrando-se aparentemente ignorante sobre a existência de algum desígnio divino por trás disso tudo. No fim das contas, a postura da Morte soa para mim como a ideia da banalidade do mal, que embora ainda não estivesse formulada quando Bergman filmou O sétimo selo, bem poderia ter sido, já nos anos 80, uma das coisas que Frederick tinha em mente como uma das "mistificações" dos intelectuais sobre Auschwitz.

A fórmula narrativa fragmentária de Bergman é reproduzida comicamente por Allen: A última noite de Boris Grushenko, que funde uma paródia da Morte de Bergman com temas de literatura russa e filosofia; e o jogo cronológico em diversos filmes, como em Hannah e suas irmãs, cuja narrativa se distribui ao longo de três comemorações do Dia de Ação de Graças (uma referência a Fanny e Alexander, filme de Bergman que se desenrola ao longo de três comemorações do Natal), em Annie Hall (que, como já dito, rompe a linearidade, indo e voltando no tempo), e em Crimes e pecados e A outra (personagens adultos que retornam para a casa da infância e reencontram pessoas e episódios daquela época, exatamente como em Morangos silvestres, de Bergman).  

Essa mistura de fragmentos de tempo e de lugar é típica da vida pós-moderna e de sua produção artística. A ciranda continua até hoje: a fragmentação que Allen toma emprestada a Bergman é depois revisitada em filmes como (500) dias com ela, que mostra um tempo como o de Annie Hall, não linear e misturado à fantasia do protagonista, que imagina até mesmo um filme em preto e branco de um cavaleiro jogando xadrez com... o Cupido. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Resenha: As cruzadas vistas pelos Árabes (Amin Maalouf)

Um dos aspectos em que a minha rotina mais se alterou com a mudança de São Paulo para Brasília foi a distância que eu tenho que percorrer diariamente para chegar ao trabalho. Em São Paulo, eu conseguia fazer o trajeto a pé, em cerca de vinte minutos. Em Brasília, eu preciso fazer uma viagem de meia hora de metrô. Até aí, nenhum problema: ciente da má fama do sistema de transporte público da capital federal, eu tinha como certo ao chegar que precisaria dirigir até o trabalho. Só que, muito embora a minha carta definitiva já vença em janeiro, eu simplesmente não consegui ainda me acostumar à ideia de dirigir. Logo, a existência do metrô e a possibilidade de usá-lo diariamente são, bem mais do que uma comodidade, um verdadeiro alívio.

De qualquer modo, me vi às voltas com o fato de que eu agora dispunha de uma hora diária gasta inteiramente no trajeto de ida e volta no metrô. Como já havia a forte sensação de perda de tempo em passar dez horas do dia no ambiente do trabalho, estava decidido a usar esse tempo de forma útil. Naturalmente, a coisa mais útil e agradável que eu poderia fazer era ler durante a viagem. E já que eu não consigo ler uma coisa de cada vez, combinei comigo mesmo que leria algum livro não literário na ida e alguma obra de literatura na volta.

Tudo isso para dizer que a leitura "não literária" da vez acabou se mostrando mesmo um livro de belas qualidades literárias. As cruzadas vistas pelos Árabes, obra do franco-libanês Amin Maalouf, parte de uma premissa provocadora: contar a história das cruzadas do ponto de vista de seus efetivos vencedores, os árabes.

Para tanto, Maalouf recorreu principalmente ao testemunho deixado por escrito por intelectuais árabes da época, que narraram com fartura de detalhes a invasão dos franj ("francos") no Oriente Médio e como a oposição à sua chegada foi retardada em décadas pela fragmentação política da região. Na ocasião, os diversos líderes muçulmanos muitas vezes julgaram mais importante prosseguir em suas disputas regionais do que unir-se para fazer frente aos ocidentais, que com isso avançaram sem encontrar maior resistência, ao custo de muitas atrocidades e derrotas militares para os árabes. Por outro lado, é bastante curiosa a contraposição entre o refinamento da cultura local e a falta de civilidade, de modos e de higiene atribuída aos bárbaros franj.

Creio que o grande acerto desse livro está em se deixar conduzir essencialmente pelos relatos da época, o que em muito contribuiu para que a narrativa assumisse um tom épico que torna a leitura bastante interessante, dada a profusão de batalhas, traições, dramas, intrigas familiares, que além de tudo conferem uma dimensão humana à história. Por outro lado, a enorme quantidade de personagens históricas às quais o leitor ocidental não está acostumado, distribuídas em um período bastante longo, torna a leitura não poucas vezes confusa - o que não prejudica o entendimento geral dos acontecimentos e a vivacidade do relato.

Eu havia lido esse livro há anos. Ao ler novamente agora, curiosamente me pego pensando em como a idade é um fator que nos torna mais sensíveis: se na adolescência o aspecto épico do livro era o que mais me chamava a atenção, agora eu me vejo bastante perturbado ao ler sobre os massacres que se seguiram à tomada de cada cidade, narrados em riqueza de detalhes a cada capítulo: cidades sitiadas, assassinatos em massa de cidadãos, pilhagens, estupros, escravidão... canibalismo!

Embora a ideia do livro seja muito boa, uma coisa me incomoda no título: não se trata simplesmente de povos árabes. Na época, o Oriente Médio estava em sua quase totalidade submetido aos turcos seldjúcidas, que eram muçulmanos, mas não de origem árabe. Não se trata de uma simplificação da edição brasileira, já que este é o título original francês da obra. Um contrassenso, já que Maalouf deixa muito claro em praticamente todas as páginas a preponderância turca na região. Sem falar nas minorias judaicas e cristãs orientais que vivam sob governo muçulmano; e no moribundo Império Bizantino, cristão ortodoxo, que teve grandes extensões tomadas pelos turcos pouco antes do aparecimento dos ocidentais. 

Preciosismo meu, talvez, mas ainda acho que seria melhor se o título fosse As cruzadas vistas pelos muçulmanos. Mesmo porque um dos aspectos mais fascinantes do texto é a sua sutileza em sugerir nas entrelinhas o quanto os acontecimentos da época foram cruciais para a psicologia das relações entre europeus e muçulmanos até os dias de hoje.