domingo, 16 de novembro de 2014

Do assombro (notas sobre uma tradução)

Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀνθρώπου δεινότερον πέλει 

Muitos são os assombros; nenhum, porém, mais assombroso que o ser humano.
(Antígona, v. 332)



O célebre verso da Antígona, tragédia escrita pelo poeta ateniense Sófocles, foi uma das primeiras coisas que me veio à mente ao ver as impressionantes imagens da superfície do cometa 67/P Churyumov-Gerasimenko enviadas pelo pequeno robô Phylae (imagens abaixo, obtidas do site do jornal Corriere della Sera).

Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli

Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli


Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli




Esse verso não me ocorreu por conta do caráter quase fantástico de uma missão que consegue fazer pousar uma peça do tamanho de uma máquina de lavar roupa em um pedaço de pedra de cerca de quatro quilômetros de comprimento, vagando a uma velocidade absurda a mais de 500 milhões de quilômetros de distância da Terra.

Não apenas por isso.

Há uma ambiguidade inerente ao verso, causada pelo uso do termo δεινὰ, que se perde quando este é traduzido usualmente como "maravilhas", "coisas extraordinárias" ou mesmo "portentos". Essas traduções não são as mais adequadas, uma vez que lançam sobre a humanidade caracterizada por aquele termo uma luz indiscutivelmente positiva, mas que ficaria fora de lugar quando contrastada com a visão do corpo celeste, este, sim, muito mais facilmente dito maravilhoso, extraordinário ou portentoso. 

Mas também monstruoso, terrível e assombroso. Daí minha opção por traduzir δεινὰ por "assombros", pois o caráter trágico da humanidade está na dubiedade de seu potencial, e o assombroso é dúbio, remetendo simultaneamente ao que é maravilhoso e terrificante - como um enorme e terrível (deinos) lagarto (sauros).

O ser humano é assombroso - entre outras coisas - por sua capacidade de criar máquinas maravilhosas, movido pela expressão artística e pela busca do conhecimento, e máquinas de matar, instrumentos com os quais mantém sua existência cotidiana ainda, no mais das vezes, mergulhada em miséria, violência e mediocridade. 

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