quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Tempus fugit

I

Ao longo de minha vida até aqui, foram várias as ocasiões em que comecei e tentei manter diários, apenas para constatar, invariavelmente, minha completa incapacidade de dar continuidade a esse tipo de registro. De modo geral, pode-se dizer que meu fracasso foi devido ora ao impiedoso contraste entre uma rotina absolutamente tediosa e a vontade obstinada de estabelecer relatos minuciosos; ora ao quase-clichê expresso pela dificuldade em se achar tempo para escrever sobre uma sucessão vibrante e enriquecedora de novos acontecimentos quando se está ocupado em vivê-los.

Diante disso, passei a crer que apenas com algum distanciamento em relação aos fatos seria possível superar esse impasse, de modo a conseguir abstrair dos registros a estéril sucessão da rotina e, ao mesmo tempo, valorar os eventos literalmente dignos de nota naquilo que tivessem não só de intensos, mas de pedagógicos, dimensão dificilmente mensurável no calor dos acontecimentos, mas de inegável utilidade até mesmo de um ponto de vista, digamos, estratégico. 

Com isso em mente, passei a registrar eventos já há algum tempo passados, em vez de me centrar no relato imediato do cotidiano. Até agora, vem dando certo.

No entanto, à medida que esse exercício tem me levado cada vez mais longe em meu próprio passado, tenho sido surpreendido pela constatação de que tenho resgatado mais os pequenos detalhes das pessoas e dos lugares e coisas que as intermediavam do que propriamente "acontecimentos" marcantes.

Enquanto meditava sobre as causas e implicações daquela constatação, vieram-me às mãos, por caminhos diversos, duas obras.

A primeira, Infância, livro de Graciliano Ramos, de leitura ainda em curso. Não vemos aqui um simples relato autobiográfico, mas o registro dos processos mentais de recuperação da memória, em suas idas e vindas, por meio das quais as lembranças são gradualmente trazidas à tona, em fragmentos, como na passagem em que acompanhamos, ao longo de algumas páginas, o esforço vacilante do narrador para recuperar uma estrofe de uma canção infantil; ou na descrição fragmentária do pai como um par de mãos que emanavam uma voz severa. 

A segunda, o brilhante Time after time, livro do filósofo inglês David Wood, que analisa a crise de nossa noção do tempo como uma dimensão universalmente válida e unidirecional, apontando para a coexistência de diversas temporalidades ou diversas maneiras de perceber a passagem do tempo na atualidade.

Ao tratar da vivência individual da passagem do tempo, Wood chama a atenção para o valor terapêutico do ato de narrar a própria existência, pois, ao contarmos os eventos pelos quais passamos, temos a oportunidade de harmonizá-los entre si, assim promovendo uma reorganização afetiva da memória. Criar tal oportunidade de rearranjo coerente das lembranças seria a função principal da psicanálise, já que o desenvolvimento mental não se daria, segundo o autor, pela sucessão ordenada de estágios estanques de maturidade, mas pela sobreposição forçada de tais estágios, sem que cada um deles se resolva de forma conclusiva.

Em resumo, o indivíduo adulto maduro não é aquele que superou sua infantilidade, mas aquele que consegue equilibrar de maneira saudável a mente adulta e as esferas inconclusas da vida infantil e do impulso instintivo.

Não à toa que tantas personagens do cinema, ao se depararem com o sofrimento psíquico presente, vagam perdidas por um passado que não quiseram ou não tiveram chance de elaborar adequadamente até então. Vale mencionar a esse respeito, a meu ver, Morangos silvestres (Ingmar Bergman) e A árvore da vida (Terrence Malick).

Por meio da reelaboração narrativa do passado e da ressignificação da rotina por meio da percepção do presente como um campo aberto de possibilidades, Wood acena para a fragmentação moderna da noção do tempo como uma janela de oportunidade para conferirmos ativamente novos sentidos à existência. De repente, minha reduzida aptidão não apenas para a narrativa autobiográfica, mas para o gênero narrativo em geral, começa a fazer sentido, à luz de certos imobilismos cotidianos.


II

Dito isso, talvez seja útil tentar extrapolar a dificuldade individual.

A forma como cada aspecto da vida é organizado para lidar com a tendência à entropia é que estrutura as diversas formas de perceber o tempo e relatar sua passagem. Como exemplos, temos os ciclos impostos pelo ritmo biológico que rege nosso organismo e o dos demais seres com os quais interagimos; os ciclos astronômicos; a insistência humana em fabricar e manter espaços que não sejam retomados e engolidos pela natureza (as cidades, os campos cultivados), neles fazendo vigorar os ciclos temporais relacionados à política; a música, cuja elaboração se fundamenta em relações temporais...




Mas a percepção newtoniana comum do tempo como algo que flui por igual em todo lugar e em qualquer condição só passa a ser severamente abalada a partir do momento em que a difusão do capitalismo passa a desorganizar a relação da humanidade com os ciclos naturais do tempo por meio da introdução de dimensões como a hora de trabalho, a oposição sucessiva entre dia útil e fim de semana, a hora do almoço, a conjugação entre ciclos de renda e de despesa (salário e aluguel...), a manipulação do tempo de maturação das espécies vivas economicamente úteis, e assim por diante.

Ao mesmo tempo, tem-se o abandono da noção iluminista de progresso, em favor da ideia de superação dialética entre modos de vida. O capitalismo supera o feudalismo; sociedades adentram a pós-modernidade, mesmo que mal tenham experimentado a modernidade; a revolução cultural acarreta, não sem alguma surpresa, o socialismo de mercado. Antes, o progresso era tido como certo, ainda que aos trancos e barrancos. Agora, só os trancos são certos, sem qualquer garantia de que a mudança de paradigma não resulte em desastre.

Em relação ao presente, em que medida é possível ao indivíduo e à sociedade elaborarem algum entendimento de si, em face da multiplicidade de formas do tempo e da posterior desorganização de grande parte delas?

Quanto ao entendimento do passado, até que ponto os esforços de periodização da história humana não se aproximam da sobreposição dos estágios do desenvolvimento psíquico, no sentido de ambos tentarem construir uma narrativa coerente a partir de substratos que não possuem entre si solução de continuidade?

Consequentemente, em que medida se aproximam, enquanto escleroses da capacidade narrativa, o fato de um indivíduo não saber lidar com o tempo biográfico, desenvolvendo neuroses e depressão; e o fato de um grupo social não conseguir dar conta adequadamente de sua própria história, passando a inventar explicações fundadas em desvios totalitários ou revisionistas?

domingo, 16 de novembro de 2014

Do assombro (notas sobre uma tradução)

Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀνθρώπου δεινότερον πέλει 

Muitos são os assombros; nenhum, porém, mais assombroso que o ser humano.
(Antígona, v. 332)



O célebre verso da Antígona, tragédia escrita pelo poeta ateniense Sófocles, foi uma das primeiras coisas que me veio à mente ao ver as impressionantes imagens da superfície do cometa 67/P Churyumov-Gerasimenko enviadas pelo pequeno robô Phylae (imagens abaixo, obtidas do site do jornal Corriere della Sera).

Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli

Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli


Cometa 67/P: le ultime immagini con straordinari dettagli




Esse verso não me ocorreu por conta do caráter quase fantástico de uma missão que consegue fazer pousar uma peça do tamanho de uma máquina de lavar roupa em um pedaço de pedra de cerca de quatro quilômetros de comprimento, vagando a uma velocidade absurda a mais de 500 milhões de quilômetros de distância da Terra.

Não apenas por isso.

Há uma ambiguidade inerente ao verso, causada pelo uso do termo δεινὰ, que se perde quando este é traduzido usualmente como "maravilhas", "coisas extraordinárias" ou mesmo "portentos". Essas traduções não são as mais adequadas, uma vez que lançam sobre a humanidade caracterizada por aquele termo uma luz indiscutivelmente positiva, mas que ficaria fora de lugar quando contrastada com a visão do corpo celeste, este, sim, muito mais facilmente dito maravilhoso, extraordinário ou portentoso. 

Mas também monstruoso, terrível e assombroso. Daí minha opção por traduzir δεινὰ por "assombros", pois o caráter trágico da humanidade está na dubiedade de seu potencial, e o assombroso é dúbio, remetendo simultaneamente ao que é maravilhoso e terrificante - como um enorme e terrível (deinos) lagarto (sauros).

O ser humano é assombroso - entre outras coisas - por sua capacidade de criar máquinas maravilhosas, movido pela expressão artística e pela busca do conhecimento, e máquinas de matar, instrumentos com os quais mantém sua existência cotidiana ainda, no mais das vezes, mergulhada em miséria, violência e mediocridade.