sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ła łengua de ła faméja

Hoje é aniversário da chegada de meus antepassados maternos ao Brasil (17 de janeiro de 1880). Apenas alguns anos atrás eu obtive esta efeméride, há muito esquecida, por meio de uma visita ao site do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, no qual é possível pesquisar o nome dos membros de cada família e a data de sua chegada ao Brasil.

Alguns elementos da cultura daqueles imigrantes representam parte significativa da minha infância: música típica, culinária e, principalmente, o idioma. Embora o meu avô não tenha se dedicado sistematicamente a ensiná-la aos filhos (nenhum deles chegou a aprender), eu acabei adquirindo desde pequeno grande interesse pela língua vêneta, de tanto ouvi-lo cantar, contar piadas e xingar no idioma, até chegar ao ponto de conseguir manter uma conversação cotidiana com ele, já na adolescência. 

Curiosamente, cresci pensando que o vêneto se tratasse apenas de um dialeto italiano. Meu avô mesmo se refere a ele como "italiano"; assim como os seus falantes no Sul do Brasil, que chamam a sua variante regional de talian. Demorei muito tempo até descobrir que, na verdade, o vêneto é uma língua separada, mais próxima do catalão, e até do francês, do que do próprio italiano.

Após ter evoluído a partir do latim vulgar, o vêneto adquiriu grande prestígio por ser a língua oficial de Veneza, que constituiu, até o século 18, uma poderosa cidade-estado. Tal fato contribuiu para que o vêneto fosse compreendido e empregado, naquela época, em contatos comerciais e políticos em toda a bacia do Mediterrâneo, além de ter se tornado um importante veículo cultural, que compreende desde peças teatrais medievais até um texto astronômico atribuído a Galileu, todos originalmente escritos na língua.

Com o declínio do poderio da República de Veneza, o vêneto passa a ser progressivamente suplantado pelo dialeto da Toscana, idioma em que Dante escrevera a Divina Comédia; e que viria a se tornar a base da língua italiana atual.

Felizmente, o vêneto se manteve vivo a despeito da derrocada política veneziana. Apesar de seu uso e transmissão estarem em risco na própria Itália, o idioma se perpetuou com os imigrantes que se espalharam pelo mundo, por lugares que incluem o Espírito Santo (onde também se fala outra língua europeia ameaçada, o pomerano) e os estados da região Sul. Ao utilizar sua língua para expressar a experiência de vida no meio rural brasileiro e falante de português, os imigrantes do norte da Itália proporcionaram ao vêneto uma vitalidade renovada, dotada de inúmeras novas possibilidades; e contribuíram para a ainda tão subestimada diversidade linguística do Brasil.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fragmentos trágicos: Ingmar Bergman e Woody Allen

Hannah e suas irmãs, de Woody Allen, foi o último filme que assisti em 2013. Sem querer adiantar muita coisa da trama, basta dizer que esta se centra no personagem de Allen, Mickey, produtor de TV hipocondríaco e obcecado pela morte, e em Elliot, interpretado por Michael Caine (eu demorei muito tempo até me tocar que era o Alfred dos filmes de Batman do Nolan), marido da Hannah do título (Mia Farrow), mas atraído por uma de suas irmãs, Lee (Barbara Hershey).

Uma das minhas passagens preferidas neste filme é protagonizada pelo companheiro de Lee, Frederick,  um ranzinza pintor europeu interpretado por Max von Sydow, que não consegue sequer reclamar da programação da TV sem iniciar um verdadeiro libelo contra a cultura de massa. O monólogo, de uma crítica mordaz e sutil, merece a transcrição (grifei):

"You missed a very dull TV show about Auschwitz. More gruesome film clips, and more puzzled intellectuals declaring their mystification over the systematic murder of millions. The reason why they could never answer the question, 'How could it possibly happen?' is that it's the wrong question. Given what people are, the question is 'Why doesn't it happen more often?' Of course it does, in subtler form... It's been ages since I sat in front of the TV, just changing channels to find something. You see the whole culture - Nazis, deodorant salesman, wrestlers, beauty contests, the talk show. Can you imagine the level of a mind that watches wrestling, hmm? But the worst are the fundamentalist preachers, third-rate con men, telling the poor suckers that watch them that they speak for Jesus and to please send in money. Money, money, money! If Jesus came back and saw what's going on in his name, he'd never stop throwing up."

Obviamente, a escolha de von Sydow para este papel não é gratuita. Tornado célebre por suas participações nos filmes de Ingmar Bergman, especialmente como o cavaleiro Antonius Block em O sétimo selo, sua atuação remete inevitavelmente à admiração de Allen pela obra do diretor sueco.

Já que Bergman era o diretor favorito de Allen, eu gosto de pensar (ou me gabar, talvez) que o fato de justamente estes dois serem meus diretores preferidos revele alguma consistência no meu próprio gosto por cinema. Consistência nunca superada, é claro, por aquela existente entre Bergman e Tarkovski, que citavam-se mutuamente quando perguntados sobre qual seria seu diretor preferido.

A obra de Bergman lida com dois temas centrais, que podem ser vagamente separados em torno de duas fases. A primeira, coincidente com o início da era nuclear e da guerra fria, se concentra em questionamentos existenciais, marcados pela influência da filosofia de Kierkegaard e de Sartre. A segunda fase, a partir de meados dos anos 60, é mais voltada para a constatação da impossibilidade de comunicação nos relacionamentos humanos. São da primeira fase filmes como O sétimo selo, Morangos silvestres e Crise (primeiro filme do diretor); e da segunda, Cenas de um casamento e Persona. Qualquer das duas fases justifica o que se diz sobre a Escandinávia ser o "calabouço existencial da Europa". 

Persona é o filme de Bergman em que a incomunicabilidade humana é levada ao extremo da literalidade, na imagem da personagem da atriz de teatro (interpretada por Liv Ullmann) que sofre - ou simula - um colapso nervoso e deixa de falar. É muito significativo que a atriz fique muda enquanto encena a tragédia de Electra, de Sófocles, já que a Electra do mito reage a tudo passionalmente, a ponto de incitar o irmão a matar a mãe, enquanto a atriz muda é sua antípoda: uma pessoa emocionalmente fria, que por medo se fecha às pessoas pelo silêncio e "mata" o filho pequeno, rejeitando-o.

Ao herdar estes temas de seu ídolo, Woody Allen consegue manejá-los, muitas vezes, com excelência, sobretudo a partir de Annie Hall, ManhattanInteriores, Hannah e suas irmãs e Crimes e pecados. No primeiro, a linearidade temporal é rompida para permitir levar simultaneamente ambas as questões; nos dois últimos, Allen cinge a história em duas narrativas paralelas - uma cômica e outra dramática, em torno das quais distribui aqueles temas. 

Por exemplo, em Hannah e suas irmãs: o perigoso impulso de Elliot (dramático) em relação à cunhada ; e a solidão e o niilismo do hipocondríaco Mickey (cômico), que, às voltas com a expectativa da morte, passa de judeu a católico e Hare Krishna, em busca de um sentido para a vida, sobre o qual tampouco encontra qualquer pista na obra dos filósofos, cujas soluções para a própria vida são postas em questão (afinal, "Sócrates molestava jovenzinhos gregos").

É justamente essa dúvida metafísica, o desconforto causado pelo "silêncio de Deus", que permeia a busca existencial do cavaleiro em O sétimo selo: enquanto as pessoas rezam e se penitenciam por causa da chegada da peste negra à Suécia, Antonius tem dúvidas sobre a existência de Deus (contraponto semelhante acontece em Morangos silvestres: o professor idoso recapitula sua existência em busca de sentido e perdão, enquanto os jovens chegam às vias de fato ao discutir sobre a existência de Deus). 

Antonius quer acreditar em Deus, mas a única entidade sobrenatural com quem consegue dialogar (desafiando-a para uma partida de xadrez, com o que espera obter algumas respostas) é a Morte, que por sua vez se contenta em fazer o que tem que fazer - matar -mostrando-se aparentemente ignorante sobre a existência de algum desígnio divino por trás disso tudo. No fim das contas, a postura da Morte soa para mim como a ideia da banalidade do mal, que embora ainda não estivesse formulada quando Bergman filmou O sétimo selo, bem poderia ter sido, já nos anos 80, uma das coisas que Frederick tinha em mente como uma das "mistificações" dos intelectuais sobre Auschwitz.

A fórmula narrativa fragmentária de Bergman é reproduzida comicamente por Allen: A última noite de Boris Grushenko, que funde uma paródia da Morte de Bergman com temas de literatura russa e filosofia; e o jogo cronológico em diversos filmes, como em Hannah e suas irmãs, cuja narrativa se distribui ao longo de três comemorações do Dia de Ação de Graças (uma referência a Fanny e Alexander, filme de Bergman que se desenrola ao longo de três comemorações do Natal), em Annie Hall (que, como já dito, rompe a linearidade, indo e voltando no tempo), e em Crimes e pecados e A outra (personagens adultos que retornam para a casa da infância e reencontram pessoas e episódios daquela época, exatamente como em Morangos silvestres, de Bergman).  

Essa mistura de fragmentos de tempo e de lugar é típica da vida pós-moderna e de sua produção artística. A ciranda continua até hoje: a fragmentação que Allen toma emprestada a Bergman é depois revisitada em filmes como (500) dias com ela, que mostra um tempo como o de Annie Hall, não linear e misturado à fantasia do protagonista, que imagina até mesmo um filme em preto e branco de um cavaleiro jogando xadrez com... o Cupido.