Uma das questões "polêmicas" do ano que se inicia foi a roupa usada pela Presidenta Dilma Rousseff no dia da posse. Não foram poucas as vozes que se esforçaram por lembrar o quanto há de machista e de superficial nesse tipo de discussão. Sem dúvida.
O problema é que, além da Dilma, a nova Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, também ficou marcada na mídia e nos hashtags da vida pelo "figurino" usado na ocasião, sobre o qual o adjetivo menos comprometedor que eu li foi "destoante"; e não demorou muito para que se frisasse o suposto caráter "temático" da cor escolhida.
Muita gente que conheço argumentou - com toda a razão - que a Dilma foi eleita Presidenta, e não Miss Universo, de modo que o que deve ser levado em consideração são as qualidades inerentes ao cargo, e não sua beleza/elegância/atratividade, não se devendo de forma alguma subordinar ou reduzir aquelas a estas.
Pois bem, qual não foi a minha decepção ao ver, apenas com horas de diferença, algumas dessas mesmas pessoas fazerem chacota com o vestido esquisito da Kátia Abreu (é bom que se diga: eu, inclusive, num primeiro momento).
Sério mesmo que vocês não veem que é, no fundo (e nem precisa ir tão fundo), o mesmo problema?
"Ah, não é a mesma coisa, pois nós zuamos a Kátia Abreu porque não a consideramos legítima/digna de estar ali". Bom, muita gente pensa o mesmo da Dilma. Não só entre uma maioria de detratores estéticos, mas inclusive na esquerda e entre aqueles que sabiamente se abstiveram de esculachá-la pela roupa.
Não creio que a Kátia Abreu precise muito de quem saia em sua defesa; e não pretendo fazer nada disso. Mas esse contraste me incomodou muito enquanto revelador de uma tremenda incoerência no discurso. Não me incomodei pelo ataque à figura da ministra, mas pelos sinais trocados com tanta facilidade por quem criticou. E como eu mesmo caí na cilada desse riso fácil, o incômodo só fez aumentar.
Talvez a fábula esteja errada: os inteligentes não dão a mínima pra ver a roupa do rei.