segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Resenha: As cruzadas vistas pelos Árabes (Amin Maalouf)

Um dos aspectos em que a minha rotina mais se alterou com a mudança de São Paulo para Brasília foi a distância que eu tenho que percorrer diariamente para chegar ao trabalho. Em São Paulo, eu conseguia fazer o trajeto a pé, em cerca de vinte minutos. Em Brasília, eu preciso fazer uma viagem de meia hora de metrô. Até aí, nenhum problema: ciente da má fama do sistema de transporte público da capital federal, eu tinha como certo ao chegar que precisaria dirigir até o trabalho. Só que, muito embora a minha carta definitiva já vença em janeiro, eu simplesmente não consegui ainda me acostumar à ideia de dirigir. Logo, a existência do metrô e a possibilidade de usá-lo diariamente são, bem mais do que uma comodidade, um verdadeiro alívio.

De qualquer modo, me vi às voltas com o fato de que eu agora dispunha de uma hora diária gasta inteiramente no trajeto de ida e volta no metrô. Como já havia a forte sensação de perda de tempo em passar dez horas do dia no ambiente do trabalho, estava decidido a usar esse tempo de forma útil. Naturalmente, a coisa mais útil e agradável que eu poderia fazer era ler durante a viagem. E já que eu não consigo ler uma coisa de cada vez, combinei comigo mesmo que leria algum livro não literário na ida e alguma obra de literatura na volta.

Tudo isso para dizer que a leitura "não literária" da vez acabou se mostrando mesmo um livro de belas qualidades literárias. As cruzadas vistas pelos Árabes, obra do franco-libanês Amin Maalouf, parte de uma premissa provocadora: contar a história das cruzadas do ponto de vista de seus efetivos vencedores, os árabes.

Para tanto, Maalouf recorreu principalmente ao testemunho deixado por escrito por intelectuais árabes da época, que narraram com fartura de detalhes a invasão dos franj ("francos") no Oriente Médio e como a oposição à sua chegada foi retardada em décadas pela fragmentação política da região. Na ocasião, os diversos líderes muçulmanos muitas vezes julgaram mais importante prosseguir em suas disputas regionais do que unir-se para fazer frente aos ocidentais, que com isso avançaram sem encontrar maior resistência, ao custo de muitas atrocidades e derrotas militares para os árabes. Por outro lado, é bastante curiosa a contraposição entre o refinamento da cultura local e a falta de civilidade, de modos e de higiene atribuída aos bárbaros franj.

Creio que o grande acerto desse livro está em se deixar conduzir essencialmente pelos relatos da época, o que em muito contribuiu para que a narrativa assumisse um tom épico que torna a leitura bastante interessante, dada a profusão de batalhas, traições, dramas, intrigas familiares, que além de tudo conferem uma dimensão humana à história. Por outro lado, a enorme quantidade de personagens históricas às quais o leitor ocidental não está acostumado, distribuídas em um período bastante longo, torna a leitura não poucas vezes confusa - o que não prejudica o entendimento geral dos acontecimentos e a vivacidade do relato.

Eu havia lido esse livro há anos. Ao ler novamente agora, curiosamente me pego pensando em como a idade é um fator que nos torna mais sensíveis: se na adolescência o aspecto épico do livro era o que mais me chamava a atenção, agora eu me vejo bastante perturbado ao ler sobre os massacres que se seguiram à tomada de cada cidade, narrados em riqueza de detalhes a cada capítulo: cidades sitiadas, assassinatos em massa de cidadãos, pilhagens, estupros, escravidão... canibalismo!

Embora a ideia do livro seja muito boa, uma coisa me incomoda no título: não se trata simplesmente de povos árabes. Na época, o Oriente Médio estava em sua quase totalidade submetido aos turcos seldjúcidas, que eram muçulmanos, mas não de origem árabe. Não se trata de uma simplificação da edição brasileira, já que este é o título original francês da obra. Um contrassenso, já que Maalouf deixa muito claro em praticamente todas as páginas a preponderância turca na região. Sem falar nas minorias judaicas e cristãs orientais que vivam sob governo muçulmano; e no moribundo Império Bizantino, cristão ortodoxo, que teve grandes extensões tomadas pelos turcos pouco antes do aparecimento dos ocidentais. 

Preciosismo meu, talvez, mas ainda acho que seria melhor se o título fosse As cruzadas vistas pelos muçulmanos. Mesmo porque um dos aspectos mais fascinantes do texto é a sua sutileza em sugerir nas entrelinhas o quanto os acontecimentos da época foram cruciais para a psicologia das relações entre europeus e muçulmanos até os dias de hoje.






domingo, 29 de dezembro de 2013

Ex machina: o porquê do nome

Deus ex machina - uma expressão oriunda do teatro. Trata-se de um recurso utilizado  por autores da Antiguidade, consistindo na aparição de alguma divindade no final da peça para resolver todos os problemas da trama, propiciando de maneira descomplicada o "final feliz". Como o ator que fazia o deus era içado por uma espécie de guindaste, de modo a parecer descer do céu, o nome do artifício cênico terminou por se referir ao próprio recurso narrativo - um "deus que sai da máquina".

Escolhi este nome por ele sintetizar em si o fato de eu ser um obcecado estudioso da Antiguidade, a ponto de ter feito disto a minha segunda formação (sou especialista em Estudos Clássicos pela UnB, meu trabalho de conclusão foi um artigo sobre Homero, que pode ser lido aqui) e de que os textos aqui apresentados invariavelmente se valerão da intermediação do computador - da máquina - logo, são textos ex machina.


É sempre bom explicar. Certa vez mencionei essa expressão em uma monitoria e um aluno logo pensou que o deus ex machina era assim chamado porque ele apareceria na trama em um óvni ou coisa do tipo. Aquele sujeito com cara de doido no History Channel ia adorar essa teoria, mas infelizmente não é o caso, muito embora a pioneira das estórias modernas de extraterrestres - The war of the worlds - seja um exemplo moderno de narrativa que se encerra com um deus ex machina - os micróbios, que levam os marcianos à morte, salvando a humanidade desesperançosa de forma totalmente inusitada.


Aí está uma coisa que eu gosto de fazer: entrelaçar temas antigos e modernos e refletir sobre como certos temas, problemas e soluções são recorrentes e se comunicam ao longo do tempo. Aviso porque eu não sei muito bem a quem se dirige esta página, tampouco sobre o quê eu deveria escrever. Apenas percebo que, ao final de um ano que trouxe muitas mudanças um tanto drásticas, sinto necessidade de escrever, de modo que esta página talvez se revele apenas para mim mesmo o meu próprio deus ex machina, com muito mais razão do que qualquer jogo de palavras que eu possa usar para tentar justificar o nome.