Um dos aspectos em que a minha rotina mais se alterou com a mudança de São Paulo para Brasília foi a distância que eu tenho que percorrer diariamente para chegar ao trabalho. Em São Paulo, eu conseguia fazer o trajeto a pé, em cerca de vinte minutos. Em Brasília, eu preciso fazer uma viagem de meia hora de metrô. Até aí, nenhum problema: ciente da má fama do sistema de transporte público da capital federal, eu tinha como certo ao chegar que precisaria dirigir até o trabalho. Só que, muito embora a minha carta definitiva já vença em janeiro, eu simplesmente não consegui ainda me acostumar à ideia de dirigir. Logo, a existência do metrô e a possibilidade de usá-lo diariamente são, bem mais do que uma comodidade, um verdadeiro alívio.
De qualquer modo, me vi às voltas com o fato de que eu agora dispunha de uma hora diária gasta inteiramente no trajeto de ida e volta no metrô. Como já havia a forte sensação de perda de tempo em passar dez horas do dia no ambiente do trabalho, estava decidido a usar esse tempo de forma útil. Naturalmente, a coisa mais útil e agradável que eu poderia fazer era ler durante a viagem. E já que eu não consigo ler uma coisa de cada vez, combinei comigo mesmo que leria algum livro não literário na ida e alguma obra de literatura na volta.
Tudo isso para dizer que a leitura "não literária" da vez acabou se mostrando mesmo um livro de belas qualidades literárias. As cruzadas vistas pelos Árabes, obra do franco-libanês Amin Maalouf, parte de uma premissa provocadora: contar a história das cruzadas do ponto de vista de seus efetivos vencedores, os árabes.
Para tanto, Maalouf recorreu principalmente ao testemunho deixado por escrito por intelectuais árabes da época, que narraram com fartura de detalhes a invasão dos franj ("francos") no Oriente Médio e como a oposição à sua chegada foi retardada em décadas pela fragmentação política da região. Na ocasião, os diversos líderes muçulmanos muitas vezes julgaram mais importante prosseguir em suas disputas regionais do que unir-se para fazer frente aos ocidentais, que com isso avançaram sem encontrar maior resistência, ao custo de muitas atrocidades e derrotas militares para os árabes. Por outro lado, é bastante curiosa a contraposição entre o refinamento da cultura local e a falta de civilidade, de modos e de higiene atribuída aos bárbaros franj.
Creio que o grande acerto desse livro está em se deixar conduzir essencialmente pelos relatos da época, o que em muito contribuiu para que a narrativa assumisse um tom épico que torna a leitura bastante interessante, dada a profusão de batalhas, traições, dramas, intrigas familiares, que além de tudo conferem uma dimensão humana à história. Por outro lado, a enorme quantidade de personagens históricas às quais o leitor ocidental não está acostumado, distribuídas em um período bastante longo, torna a leitura não poucas vezes confusa - o que não prejudica o entendimento geral dos acontecimentos e a vivacidade do relato.
Eu havia lido esse livro há anos. Ao ler novamente agora, curiosamente me pego pensando em como a idade é um fator que nos torna mais sensíveis: se na adolescência o aspecto épico do livro era o que mais me chamava a atenção, agora eu me vejo bastante perturbado ao ler sobre os massacres que se seguiram à tomada de cada cidade, narrados em riqueza de detalhes a cada capítulo: cidades sitiadas, assassinatos em massa de cidadãos, pilhagens, estupros, escravidão... canibalismo!
Embora a ideia do livro seja muito boa, uma coisa me incomoda no título: não se trata simplesmente de povos árabes. Na época, o Oriente Médio estava em sua quase totalidade submetido aos turcos seldjúcidas, que eram muçulmanos, mas não de origem árabe. Não se trata de uma simplificação da edição brasileira, já que este é o título original francês da obra. Um contrassenso, já que Maalouf deixa muito claro em praticamente todas as páginas a preponderância turca na região. Sem falar nas minorias judaicas e cristãs orientais que vivam sob governo muçulmano; e no moribundo Império Bizantino, cristão ortodoxo, que teve grandes extensões tomadas pelos turcos pouco antes do aparecimento dos ocidentais.
Preciosismo meu, talvez, mas ainda acho que seria melhor se o título fosse As cruzadas vistas pelos muçulmanos. Mesmo porque um dos aspectos mais fascinantes do texto é a sua sutileza em sugerir nas entrelinhas o quanto os acontecimentos da época foram cruciais para a psicologia das relações entre europeus e muçulmanos até os dias de hoje.
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