Deus ex machina - uma expressão oriunda do teatro. Trata-se de um recurso utilizado por autores da Antiguidade, consistindo na aparição de alguma divindade no final da peça para resolver todos os problemas da trama, propiciando de maneira descomplicada o "final feliz". Como o ator que fazia o deus era içado por uma espécie de guindaste, de modo a parecer descer do céu, o nome do artifício cênico terminou por se referir ao próprio recurso narrativo - um "deus que sai da máquina".
Escolhi este nome por ele sintetizar em si o fato de eu ser um obcecado estudioso da Antiguidade, a ponto de ter feito disto a minha segunda formação (sou especialista em Estudos Clássicos pela UnB, meu trabalho de conclusão foi um artigo sobre Homero, que pode ser lido aqui) e de que os textos aqui apresentados invariavelmente se valerão da intermediação do computador - da máquina - logo, são textos ex machina.
É sempre bom explicar. Certa vez mencionei essa expressão em uma monitoria e um aluno logo pensou que o deus ex machina era assim chamado porque ele apareceria na trama em um óvni ou coisa do tipo. Aquele sujeito com cara de doido no History Channel ia adorar essa teoria, mas infelizmente não é o caso, muito embora a pioneira das estórias modernas de extraterrestres - The war of the worlds - seja um exemplo moderno de narrativa que se encerra com um deus ex machina - os micróbios, que levam os marcianos à morte, salvando a humanidade desesperançosa de forma totalmente inusitada.
Aí está uma coisa que eu gosto de fazer: entrelaçar temas antigos e modernos e refletir sobre como certos temas, problemas e soluções são recorrentes e se comunicam ao longo do tempo. Aviso porque eu não sei muito bem a quem se dirige esta página, tampouco sobre o quê eu deveria escrever. Apenas percebo que, ao final de um ano que trouxe muitas mudanças um tanto drásticas, sinto necessidade de escrever, de modo que esta página talvez se revele apenas para mim mesmo o meu próprio deus ex machina, com muito mais razão do que qualquer jogo de palavras que eu possa usar para tentar justificar o nome.
Que bom que você explicou! Fiquei um tempo pensando no nome e já estava me achando meio lenta por não entender... Mas eu não conhecia mesmo.
ResponderExcluirEstudos Clássicos? Isso parece difícil, sabe? hahaha Aliás, Odisseia foi uma das minhas leituras mais sofridas e eu peguei uma pequena raivinha disso tudo.
Legal ter começado o blog! Eu tb enrolei bastante pra começar (já tinha a conta há anos e nunca postava nada), mas até que tenho tido certa regularidade nos posts agora. Espero que goste de escrever aqui =)
bjs,
Carla
Hahaha... sinceramente, acho que aprendi nos estudos clássicos tanto ou mais sobre a modernidade do que sobre a antiguidade mesmo... nem é aquele clichê de "conhecendo o passado, entendemos o presente", mas há tanta coisa em nosso modo de ser e pensar ainda carregada dos modelos desse tempo - ou que a gente vai buscar nos modelos desse tempo - que fica impossível estudar sem conversar com o que veio depois.
ExcluirBom, em se tratando de Homero, eu sempre preferi a Ilíada (embora eu realmente tenha me envolvido ao ler a parte final da Odisseia). A Ilíada tem uma estrutura mais simples, direta e um tom mais arcaico, que eu gosto muito. A Odisseia é resultado do acúmulo de séculos de canções e lendas populares (pois é, o "Homero" que escreveu a Odisseia não é o mesmo "Homero" da Ilíada, tem algumas centenas de anos de diferença aí, além da colaboração de vários poetas populares/repentistas ao longo do tempo), daí a enorme quantidade de lugares e personagens, que às vezes deixam a leitura arrastada. Praticamente todo o meu interesse acadêmico em Homero está ligado à Ilíada, que preservou formas de linguagem mais antigas e uma narrativa ao mesmo tempo rica e simples :)
Começar a ler clássicos pela Odisseia realmente traz o risco de frustração, a meu ver. Eu recomendaria, da próxima vez, tentar ler uma tragédia, porque são obras ao mesmo tempo dinâmicas (pois são peças teatrais) e muito profundas.
Sobre o blog: pois é, tive um faz muito tempo, mas a correria da vida não permitiu continuá-lo. Desta vez, espero manter também a regularidade.
Valeu a visita, beijo!