Eu tenho fases meio "temáticas" quando se trata de cinema. Quase sempre assisto a vários filmes do mesmo diretor, por exemplo, até me cansar e embarcar na próxima monomania cinematográfica. Ultimamente mergulhei de cabeça no cinema japonês, do qual já conhecia alguns poucos títulos.
Neste texto, apresento minhas impressões sobre três filmes não tão conhecidos que eu gostaria de indicar (são três filmes dos quais gostei muito, mas há outros, que deixei de fora dessa lista por serem obras mais famosas, como é o caso de Os sete samurais, de Akira Kurosawa).
1- CHUSHINGURA (Hiroshi Inagaki, 1962). Acho que ainda está em cartaz a versão estrelada por Keanu Reeves para a história dos 47 ronin, os samurai que aguardaram pacientemente por cerca de dois anos para arquitetar e executar a vingança pela morte de seu senhor, forçado por um alto funcionário corrupto do xogunato a cometer seppuku (ou "haraquiri"). Trata-se de uma história real, acontecida entre 1701 e 1703, até hoje considerada a lenda nacional do Japão, graças à extrema lealdade e perseverança dos ronin. Infelizmente, o filme do Reeves, não contente em recontar uma história que já é fantástica sem invencionices, fez o favor de fantasiar e estragar a coisa, introduzindo feiticeiras e monstros via computação gráfica. Para nosso alívio, a Versátil lançou o box Os 47 Ronins, contendo o que considera ser "as três melhores versões da história" (em óbvia alusão ao blockbuster horroroso): três filmes de três diretores japoneses, narrativas fidedignas, filmadas entre as décadas de 1940 e 1960. O terceiro filme é a versão do diretor Hiroshi Inagaki, Chushingura, um épico que me prendeu totalmente ao longo de suas três horas e meia de duração. Além de mostrar a execução paciente do plano de vingança dos samurai sem senhor, é também um ótimo retrato da mentalidade e da cultura da época, para não mencionar que é um filme muito poético e belíssimo em todos os detalhes da recriação do contexto do Japão feudal.
2- RAN (Akira Kurosawa, 1985): Este eu já conheço faz tempo. Ran não é apenas um dos meus filmes japoneses preferidos, mas um dos meus filmes preferidos na vida. Trata-se de uma versão do Rei Lear, de Shakespeare, que se passa no Japão do século 16: um senhor feudal resolve dividir suas terras entre os três filhos, que passam imediatamente a guerrear entre si pelo poder absoluto; daí por diante, tudo conduz ao caos (que é o significado do título do filme). Ótimo para nos recordar que, por mais que seja estilizada e idealizada na arte, a guerra - e a vida de modo geral - produz, na verdade, cenários os mais repulsivos. Advirto desde já que o final deste filme é o maior tapa na cara cinematográfico que eu já levei. Segue o trailer.
3- BAKUSHÛ (Yasujiro Ozu, 1951). Os dois filmes anteriores muito me interessam, além das histórias apresentadas e dos aspectos estéticos, por serem retratos das artes marciais clássicas do Japão, das quais sou praticante. Mas, para não dizer que eu falei apenas de filmes históricos e de samurai (mas que obviamente não se resumem a isso), apresento este que é o filme por meio do qual eu descobri a obra do diretor Yasujiro Ozu (1903-1963): um drama a respeito de uma típica família japonesa do pós-guerra, deslocada entre tradição e modernidade. A filha, Noriko, tem 28 anos e trabalha como secretária em Tóquio. Para desespero dos pais e do irmão mais velho, ela tem opiniões muito claras sobre o novo papel a ser desempenhado pelas mulheres no Japão moderno; e não demonstra qualquer interesse em se casar, o que abre espaço para uma abordagem contundente - mas também bela, sensível e até mesmo cômica - das relações de gênero na sociedade japonesa da época. Confesso que eu esperava um filme totalmente hermético e hiper-intelectualizado, mas me deparei com uma narrativa simples e incrivelmente honesta e direta. As principais obras de Ozu também foram lançadas em box recentemente. Bakushû recebeu o título em português de Também fomos felizes; em inglês, é chamado Early Summer.
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