I
Ao longo de minha vida até aqui, foram várias as ocasiões em que comecei e tentei manter diários, apenas para constatar, invariavelmente, minha completa incapacidade de dar continuidade a esse tipo de registro. De modo geral, pode-se dizer que meu fracasso foi devido ora ao impiedoso contraste entre uma rotina absolutamente tediosa e a vontade obstinada de estabelecer relatos minuciosos; ora ao quase-clichê expresso pela dificuldade em se achar tempo para escrever sobre uma sucessão vibrante e enriquecedora de novos acontecimentos quando se está ocupado em vivê-los.
Ao longo de minha vida até aqui, foram várias as ocasiões em que comecei e tentei manter diários, apenas para constatar, invariavelmente, minha completa incapacidade de dar continuidade a esse tipo de registro. De modo geral, pode-se dizer que meu fracasso foi devido ora ao impiedoso contraste entre uma rotina absolutamente tediosa e a vontade obstinada de estabelecer relatos minuciosos; ora ao quase-clichê expresso pela dificuldade em se achar tempo para escrever sobre uma sucessão vibrante e enriquecedora de novos acontecimentos quando se está ocupado em vivê-los.
Diante disso, passei a crer que apenas com algum distanciamento em relação aos fatos seria possível superar esse impasse, de modo a conseguir abstrair dos registros a estéril sucessão da rotina e, ao mesmo tempo, valorar os eventos literalmente dignos de nota naquilo que tivessem não só de intensos, mas de pedagógicos, dimensão dificilmente mensurável no calor dos acontecimentos, mas de inegável utilidade até mesmo de um ponto de vista, digamos, estratégico.
Com isso em mente, passei a registrar eventos já há algum tempo passados, em vez de me centrar no relato imediato do cotidiano. Até agora, vem dando certo.
No entanto, à medida que esse exercício tem me levado cada vez mais longe em meu próprio passado, tenho sido surpreendido pela constatação de que tenho resgatado mais os pequenos detalhes das pessoas e dos lugares e coisas que as intermediavam do que propriamente "acontecimentos" marcantes.
Enquanto meditava sobre as causas e implicações daquela constatação, vieram-me às mãos, por caminhos diversos, duas obras.
A primeira, Infância, livro de Graciliano Ramos, de leitura ainda em curso. Não vemos aqui um simples relato autobiográfico, mas o registro dos processos mentais de recuperação da memória, em suas idas e vindas, por meio das quais as lembranças são gradualmente trazidas à tona, em fragmentos, como na passagem em que acompanhamos, ao longo de algumas páginas, o esforço vacilante do narrador para recuperar uma estrofe de uma canção infantil; ou na descrição fragmentária do pai como um par de mãos que emanavam uma voz severa.
A segunda, o brilhante Time after time, livro do filósofo inglês David Wood, que analisa a crise de nossa noção do tempo como uma dimensão universalmente válida e unidirecional, apontando para a coexistência de diversas temporalidades ou diversas maneiras de perceber a passagem do tempo na atualidade.
Ao tratar da vivência individual da passagem do tempo, Wood chama a atenção para o valor terapêutico do ato de narrar a própria existência, pois, ao contarmos os eventos pelos quais passamos, temos a oportunidade de harmonizá-los entre si, assim promovendo uma reorganização afetiva da memória. Criar tal oportunidade de rearranjo coerente das lembranças seria a função principal da psicanálise, já que o desenvolvimento mental não se daria, segundo o autor, pela sucessão ordenada de estágios estanques de maturidade, mas pela sobreposição forçada de tais estágios, sem que cada um deles se resolva de forma conclusiva.
Em resumo, o indivíduo adulto maduro não é aquele que superou sua infantilidade, mas aquele que consegue equilibrar de maneira saudável a mente adulta e as esferas inconclusas da vida infantil e do impulso instintivo.
Em resumo, o indivíduo adulto maduro não é aquele que superou sua infantilidade, mas aquele que consegue equilibrar de maneira saudável a mente adulta e as esferas inconclusas da vida infantil e do impulso instintivo.
Não à toa que tantas personagens do cinema, ao se depararem com o sofrimento psíquico presente, vagam perdidas por um passado que não quiseram ou não tiveram chance de elaborar adequadamente até então. Vale mencionar a esse respeito, a meu ver, Morangos silvestres (Ingmar Bergman) e A árvore da vida (Terrence Malick).
Por meio da reelaboração narrativa do passado e da ressignificação da rotina por meio da percepção do presente como um campo aberto de possibilidades, Wood acena para a fragmentação moderna da noção do tempo como uma janela de oportunidade para conferirmos ativamente novos sentidos à existência. De repente, minha reduzida aptidão não apenas para a narrativa autobiográfica, mas para o gênero narrativo em geral, começa a fazer sentido, à luz de certos imobilismos cotidianos.
II
Dito isso, talvez seja útil tentar extrapolar a dificuldade individual.
II
Dito isso, talvez seja útil tentar extrapolar a dificuldade individual.
A forma como cada aspecto da vida é organizado para lidar com a tendência à entropia é que estrutura as diversas formas de perceber o tempo e relatar sua passagem. Como exemplos, temos os ciclos impostos pelo ritmo biológico que rege nosso organismo e o dos demais seres com os quais interagimos; os ciclos astronômicos; a insistência humana em fabricar e manter espaços que não sejam retomados e engolidos pela natureza (as cidades, os campos cultivados), neles fazendo vigorar os ciclos temporais relacionados à política; a música, cuja elaboração se fundamenta em relações temporais...
Mas a percepção newtoniana comum do tempo como algo que flui por igual em todo lugar e em qualquer condição só passa a ser severamente abalada a partir do momento em que a difusão do capitalismo passa a desorganizar a relação da humanidade com os ciclos naturais do tempo por meio da introdução de dimensões como a hora de trabalho, a oposição sucessiva entre dia útil e fim de semana, a hora do almoço, a conjugação entre ciclos de renda e de despesa (salário e aluguel...), a manipulação do tempo de maturação das espécies vivas economicamente úteis, e assim por diante.
Ao mesmo tempo, tem-se o abandono da noção iluminista de progresso, em favor da ideia de superação dialética entre modos de vida. O capitalismo supera o feudalismo; sociedades adentram a pós-modernidade, mesmo que mal tenham experimentado a modernidade; a revolução cultural acarreta, não sem alguma surpresa, o socialismo de mercado. Antes, o progresso era tido como certo, ainda que aos trancos e barrancos. Agora, só os trancos são certos, sem qualquer garantia de que a mudança de paradigma não resulte em desastre.
Ao mesmo tempo, tem-se o abandono da noção iluminista de progresso, em favor da ideia de superação dialética entre modos de vida. O capitalismo supera o feudalismo; sociedades adentram a pós-modernidade, mesmo que mal tenham experimentado a modernidade; a revolução cultural acarreta, não sem alguma surpresa, o socialismo de mercado. Antes, o progresso era tido como certo, ainda que aos trancos e barrancos. Agora, só os trancos são certos, sem qualquer garantia de que a mudança de paradigma não resulte em desastre.
Em relação ao presente, em que medida é possível ao indivíduo e à sociedade elaborarem algum entendimento de si, em face da multiplicidade de formas do tempo e da posterior desorganização de grande parte delas?
Quanto ao entendimento do passado, até que ponto os esforços de periodização da história humana não se aproximam da sobreposição dos estágios do desenvolvimento psíquico, no sentido de ambos tentarem construir uma narrativa coerente a partir de substratos que não possuem entre si solução de continuidade?
Consequentemente, em que medida se aproximam, enquanto escleroses da capacidade narrativa, o fato de um indivíduo não saber lidar com o tempo biográfico, desenvolvendo neuroses e depressão; e o fato de um grupo social não conseguir dar conta adequadamente de sua própria história, passando a inventar explicações fundadas em desvios totalitários ou revisionistas?
Don, gostei muito do texto! Parabéns! Você coloca bastantes questões nele, que me fizeram pensar muito. Gostaria de devolver algumas perguntas hehe
ResponderExcluirNo texto como um todo, acho que fica uma tese implícita: o tempo como doador de sentido para existência, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista coletivo. É uma tese com a qual eu tenho simpatia e concordo, mas, não tenho capacidade de sustentar haha
Como podemos fugir de uma concepção de tempo que o mundo capitalista nos impõe? Será que a crítica é capaz de oferecer um novo sentido para nossas vidas? Considerando que sim, por que , quando se trata de pensar sobre tempo e memória, consideramos que a memória é uma virtude?
O seu texto, Don, fala de memória, de identidade, de registro, de acumulação, mas não fala de esquecimento, ao menos não diretamente. Tratamos o esquecimento como uma dificuldade, até o ponto em que se tornou 'questão médica' atualmente. Minha questão é: até que ponto o esquecimento não é também uma força de formação da nossa identidade? Até que ponto 'esquecer' não é bom, saudável, necessário? Por que o problema de não conseguir fazer um diário, com relatos minuciosos, é exatamente um problema?
Fica nas entrelinhas, em alguns pontos, que a acumulação dos relatos é sinal de boa memória. E por que isso é necessariamente um valor positivo? De que ponto de vista isso pode ser, sempre, considerado como algo bom?
Em grande parte, penso que a nossa ansiedade com o tempo e com o futuro vem de um regime de 'obrigação de lembrar', em que o esquecimento é mau - ao menos no que diz respeito à produção econômica, às atividades profissionais que, no limite, consomem cada vez mais o ‘nosso tempo’. Esquecer é sinal de, por assim dizer, improdutividade ou ineficiência.
Mesmo numa visão mais rasa sobre a psicanálise, tempo e memória são sempre acumulações. Não sei se há espaço para ‘esquecimento’ na psicanálise, a não ser como sintoma de repressão ou recalque. Esquecer não é um direito ou uma possibilidade que não seja patológica, em muitas oportunidades. De outro lado, o esquecimento quando aparece num sentido de saúde psíquica, tem sentido de apaziguamento, mas nunca apagamento de experiências. Pelo menos, até onde eu alcanço a psicanálise.
Em termos mais metafísicos, acho mais assustadora a pergunta "o que é o esquecimento?" do que 'o que é a memória?', mais assustadora a perspectiva de que o passado esquecido 'deixou de ser', 'deixou de ser' 'tempo'. Talvez o esforço mnemônico possa estar associado com esse 'medo de perder ser', já que, se Platão está certo, viver é lembrar, saber é antes uma rememoração.
Então, estaríamos condenados ao dever de lembrar? Ou à impossibilidade – sem uso de drogas ou de danos cerebrais – do esquecimento como apagamento de memórias? E se o tempo é mesmo doador de sentido para nossas experiências, a memória funcionaria como o mecanismo de orientação de sentido. Estaríamos fadados a sempre ‘viver para trás’? Impossibilitados de outros futuros possíveis? (afinal, nossas identidades são o nosso ‘ser no tempo’)
Se aceitamos que existe a possibilidade de formularmos outro conceito de tempo, uma consequência que se pode tirar é que nossa identidade é uma invenção. Inventar e ‘mentir’ seria muito mais importante do que lembrar e registrar – ainda que a memória tenha seu valor – o esquecimento seria como que uma forma de invenção de uma ‘segunda chance’, ‘terceira chance’... . É certo que há coisas que não se devem esquecer, nunca; mas o esforço maior é o juízo que se faz sobre o que deve ou não ser lembrado e não propriamente de ‘lembrar e ponto’.
Daí que também é sempre mais reflexiva a memória e não um ‘retrato do tempo’. Talvez por isso seja mais fácil ‘lembrar com o distanciamento do tempo’ porque talvez isso signifique um espaço maior para reflexão.
Abraços,
O blogspot comeu meu comentário, rs... vou tentar começar de novo com o que pude salvar...
ExcluirEu tinha dito no começo que meus pensamentos tão soltos, e vou escrever tudo sem revisar, rs... até porque não sei direito o que dizer, então vamos ver o que sai:
Não deixemos de criticar o próprio questionamento de “o que é o tempo?”. Digo isso porque, talvez aplicando um princípio wittgensteiniano, acho importante sempre termos em mente mais ou menos que tipo de resposta esperamos quando fazemos uma pergunta. Se não temos absolutamente nenhuma ideia ou noção acerca do que é o tempo, até mesmo questões sobre ele são impraticáveis.
Tendo isso em vista, talvez uma pergunta mais interessante fosse algo na linha “como é a nossa relação individual com aquilo que chamamos de tempo?”. E como você pôs muito acertadamente a meu ver, isso é dado hoje fundamentalmente pelo capitalismo, na medida em que, aparentemente, sempre nos foi dado em função do modo de produção. É que a experiência apreensível que temos de humanidade depende materialmente da organização da nossa vida socioeconômica. Como a produção capitalista depende da mensuração do tempo em sua quantidade, aprendemos a moldar tudo em nossas vidas mais ou menos em torno desse conceito de tempo (não de maneira exclusiva, mas de maneira imprescindível).
Curiosamente, lendo um livro esta semana, passei por um trecho que dizia que a personagem tinha acordado muito cedo para as matinas da missa, e isso foi escrito com certo efeito. E aí logo depois duas mulheres conversando ao meu lado disseram: - amanhã, vou acordar às oito – no que a outra respondeu, espantada: - às oito?! Achei curioso o espanto; sabemos exatamente qual é a sensação do tempo em suas horas no dia.
Mas o interessante, e aí entro nas suas perguntas, é que a sensação é construída necessariamente no coletivo. O que são as oito horas da manhã ou as matinas da missa para o Robinson Crusoé em sua ilha sem relógio e nem calendário? Evidentemente, o papel vazio de uma sociedade ao seu redor terá seu efeito na percepção do tempo desse isolado, e ele poderá contar os períodos de dia e de noite, mas para quê faria isso? Se ele sobreviver, poderá eventualmente contar de alguma forma o tempo necessário para a frutificação de alguma árvore de que necessite ou algo assim, mas veja como estamos ainda longe da nossa própria percepção de tempo numa sociedade industrial capitalista.
(continua... rs)
Agora vamos imaginar qualquer tribo “primitiva” e calcular a quantidade de tempo necessário que cada indivíduo precisa dispender para a sobrevivência do grupo. É uma quantidade de tempo significativamente menor do que a nossa (pois vivemos apenas na condição da exploração de nosso sobretrabalho). Numa sociedade sem escrita, sem Internet, sem televisão etc., é muito provável que o tempo que lhes sobram para além do trabalho necessário seja usado, como efetivamente o foi, para a revisão e apreço de narrativas do próprio grupo. O reiterado trabalho de gerações nessa oratura compartilhada é o que define a consciência de si do grupo, e, por extensão, a consciência do indivíduo que só existe nesse reboque. A vida inteira do grupo gira em torno de si mesmos, então faz sentido que tudo o que produzam no nível da consciência seja para si mesmos também. Eles se encontram ali e se reconhecem, e veem ali seu lar físico e espiritual.
ExcluirEm sociedades posteriores, isso ainda se mantém, ainda que parcialmente, em determinadas classes, na aristocracia etc. (basta nos lembrarmos do contexto dos épicos, por exemplo, e como eles são uma repassagem constante da memória). Mas a partir do momento em que, no capitalismo, a novidade, mais do que a recontagem, é elemento norteador da mercadoria, nossas vidas também têm essa orientação em maior ou menor medida. O Iluminismo ainda vige nisso; somos todos orientados para o futuro, sociedade que tenta desesperadamente entrar nesse futuro de ficção científica que cada vez mais me parece inexoravelmente uma distopia. Em nome da racionalidade que sustenta o capitalismo, vamos padronizando tudo para não precisarmos mais perder tempo lembrando – aliás, lembrar-se, nessa qualidade de rememorar a vida e os fatos, é mesmo desnecessário – mais do que isso; é indesejável (quanto melhor constituímos o passado, mais difícil fica pra duplipensar). A História se transforma cada vez mais numa arte publicitária ao sabor das conjecturas (não que não fosse antes, mas antes era mais propriamente propaganda, agora essa propaganda é essencialmente publicitária).
Enfim, estou dando voltas porque a rédea tá solta, mas eu acho que a incapacidade que temos de lidar com nossa percepção do tempo se dá, talvez, por essas razões (evidentemente não exaustivas – aliás, notemos sempre que isso só faz sentido se comparamos a nossa sensação atual com aquilo que depreendemos da sensação da humanidade no passado):
a. Fazemos cada mais coisas em cada vez menos tempo, e acho que ainda que biologicamente possamos dar conta disso, ainda não desenvolvemos cultura para tanto, e esse descompasso é sempre crescente.
b. Das coisas que fazemos em cada vez menos tempo, cada vez menos coisas dentre essas são atividades de rememoração e nesse sentido de constituição mais consciente de si. E ainda que possamos compensar isso com atividades tais como arte ou análise, de qualquer maneira a construção coletiva tende a estar comprometida. Eu realmente acho que ainda não nos destacamos na História humana ou na das espécies como um animal capaz de viver isoladamente, ainda que pretensiosamente.
c. Nosso tempo nos é fundamentalmente roubado pela dinâmica produtiva do capitalismo. É compreensibilíssimo que nós não percebamos o roubo em si ou suas causas, mas os efeitos são inafastáveis.
d. Ainda que apelemos a arremedos de narrativas para remendar o tempo individual e social (aliás, a própria divisão forte desses dois tempos já me parece uma ruptura grave, senão letal), a maneira própria como lidamos com narrativas também está comprometida pela lógica produtiva do capital: será que somos capazes de, tanto no plano individual quanto no coletivo, de apreciar e nos relacionarmos mesmo com narrativas à maneira que sociedades anteriores faziam? Toda narrativa é construída também no momento em que é recebida, mas hoje nós recebemos as narrativas, como tudo o mais, como produtos descartáveis da sociedade de consumo. Como ficamos, então?
Enfim, tá tudo muito bagunçado, mas conforme conversarmos, vou retificando, rs...
Abração, caros!
Salve, Don Mario! Obrigado por devolver questões tão interessantes.
ExcluirPrimeiramente, devo dizer que concordo plenamente com suas colocações sobre a importância - e o direito - ao esquecimento. Bastante possível, sim, que o dever de lembrar em todas as esferas da vida seja um desdobramento da imposição da memória como forma de controle, especialmente no campo profissional (no qual muitas vezes sinto dificuldades decorrentes da dificuldade narrativa que mencionei no texto).
No entanto, a dimensão que pretendi combater no texto não é a do esquecimento, mas aquela da alienação. Uma coisa é esquecer, inclusive como parte de um processo mental natural, com a retenção daquilo que de fato importa; outra, bem diversa, é perder-se na repetição da vida, com a inibição da capacidade de narrar criticamente a própria existência. O que eu tento exprimir no começo do texto é que tanto a incapacidade de narrar quanto o excesso de pormenores podem ser sinais sintomáticos de certa alienação...
Uma coisa sobre a qual eu não havia pensado inicialmente, mas que após ler seu comentário me parece bastante razoável de se supor, é que a possibilidade do esquecimento seja uma das ferramentas que modelem a possibilidade de organizar uma narrativa da própria vida, por impedir que os fatos insignificantes, mas também certas culpas e rancores, tirem o foco daquilo que seja realmente constitutivo da vida do sujeito.
Grande abraço!
Don Leonardo!
ExcluirQuando me referi ao 'esquecimento do esquecimento' no seu texto, rs, não quis dizer propriamente que você o estava atacando como algo condenável. Parti da interpretação de que a sua queixa de não conseguir fazer um relato reflexivo sobre a vida como um sintoma de uma valorização positiva do 'lembrar', mas, em nenhum momento, de fato, existe um propósito em 'acabar com o esquecimento'.
Aliás, creio que justamente 'esquecer o esquecimento' pode ser interpretado como um dos fatores - em termos individuais - da dificuldade de elaborarmos diários ou relatos críticos de nossas vidas. É ao que referi como 'obrigação de lembrar' que relaciono com essa dificuldade de escrever, a dificuldade de nos darmos ao esquecimento - que pode ser visto como 'moralmente condenável'. Tudo isto, como muito bem disse menino BomberLeal, rs, refere-se às nossas determinações materiais.
E lendo o seu comentário, Don, pensei numa questão interessante sobre isso que você chama de 'alienação das nossas próprias vidas': não é curioso, se estivermos corretos sobre a função do esquecimento, de que quanto maior o esforço de registrar e lembrar de nossas vidas, mais talvez estejamos alheios a ela?
agora que percebi que publiquei como resposta ao Marião... bem, não tem problema, hehehe
ResponderExcluirNão faz mal, eu respondo aqui :P
ExcluirEssa coisa de saber exatamente a sensação de cada momento do dia a partir da medição das horas me lembra um episódio de The Big Bang Theory no qual o Sheldon anuncia ter criado um novo período do dia, o "pre-evening", para definir melhor as atividades do tempo entre o fim da tarde e o começo da noite.
Acho que mesmo individualmente a passagem do tempo tem seus impactos, como no caso do isolado que vê a passagem dos dias e a frutificação. A questão é que, como você colocou, a relação é bem diversa daquela que nós temos, da forma como o tempo é contabilizado nas sociedades modernas.
Creio que o fato de termos atingido certo grau de desenvolvimento tecnológico sem que isso contribua para nosso ócio (só o prejudica, na verdade) é um claro sinal de que não somos tão racionais assim, no fim das contas. Hannah Arendt e Max Weber chamam a atenção para o fato de que hoje se trabalha muito mais do que no passado. Aliás, a Arendt faz as contas e demonstra que na Idade Média só se trabalhava aproximadamente metade dos dias do ano. Weber calcula em cerca de seis horas diárias, quando muito, o que se trabalhava no campo logo antes do advento da industrialização (e isso só na época da colheita, ou seja, no ápice de trabalho no ano).
Certamente, portanto, a relação com o tempo nas sociedades que o Weber chamaria de "tradicionais" é bem outra. Aliás, a propósito da épica, penso que ainda está para ser feito o equacionamento entre o "não esquecimento" (aletheia) como "verdade" na cultura grega.
Eu não sei se compreendi bem a caracterização que você fez da História como publicidade.
Abração!
Excelente texto. Excelente reflexão.
ResponderExcluirValeu, Felipe! Obrigado pela leitura.
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