Hoje é aniversário da chegada de meus antepassados maternos ao Brasil (17 de janeiro de 1880). Apenas alguns anos atrás eu obtive esta efeméride, há muito esquecida, por meio de uma visita ao site do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, no qual é possível pesquisar o nome dos membros de cada família e a data de sua chegada ao Brasil.
Alguns elementos da cultura daqueles imigrantes representam parte significativa da minha infância: música típica, culinária e, principalmente, o idioma. Embora o meu avô não tenha se dedicado sistematicamente a ensiná-la aos filhos (nenhum deles chegou a aprender), eu acabei adquirindo desde pequeno grande interesse pela língua vêneta, de tanto ouvi-lo cantar, contar piadas e xingar no idioma, até chegar ao ponto de conseguir manter uma conversação cotidiana com ele, já na adolescência.
Curiosamente, cresci pensando que o vêneto se tratasse apenas de um dialeto italiano. Meu avô mesmo se refere a ele como "italiano"; assim como os seus falantes no Sul do Brasil, que chamam a sua variante regional de talian. Demorei muito tempo até descobrir que, na verdade, o vêneto é uma língua separada, mais próxima do catalão, e até do francês, do que do próprio italiano.
Após ter evoluído a partir do latim vulgar, o vêneto adquiriu grande prestígio por ser a língua oficial de Veneza, que constituiu, até o século 18, uma poderosa cidade-estado. Tal fato contribuiu para que o vêneto fosse compreendido e empregado, naquela época, em contatos comerciais e políticos em toda a bacia do Mediterrâneo, além de ter se tornado um importante veículo cultural, que compreende desde peças teatrais medievais até um texto astronômico atribuído a Galileu, todos originalmente escritos na língua.
Com o declínio do poderio da República de Veneza, o vêneto passa a ser progressivamente suplantado pelo dialeto da Toscana, idioma em que Dante escrevera a Divina Comédia; e que viria a se tornar a base da língua italiana atual.
Felizmente, o vêneto se manteve vivo a despeito da derrocada política veneziana. Apesar de seu uso e transmissão estarem em risco na própria Itália, o idioma se perpetuou com os imigrantes que se espalharam pelo mundo, por lugares que incluem o Espírito Santo (onde também se fala outra língua europeia ameaçada, o pomerano) e os estados da região Sul. Ao utilizar sua língua para expressar a experiência de vida no meio rural brasileiro e falante de português, os imigrantes do norte da Itália proporcionaram ao vêneto uma vitalidade renovada, dotada de inúmeras novas possibilidades; e contribuíram para a ainda tão subestimada diversidade linguística do Brasil.
Após ter evoluído a partir do latim vulgar, o vêneto adquiriu grande prestígio por ser a língua oficial de Veneza, que constituiu, até o século 18, uma poderosa cidade-estado. Tal fato contribuiu para que o vêneto fosse compreendido e empregado, naquela época, em contatos comerciais e políticos em toda a bacia do Mediterrâneo, além de ter se tornado um importante veículo cultural, que compreende desde peças teatrais medievais até um texto astronômico atribuído a Galileu, todos originalmente escritos na língua.
Com o declínio do poderio da República de Veneza, o vêneto passa a ser progressivamente suplantado pelo dialeto da Toscana, idioma em que Dante escrevera a Divina Comédia; e que viria a se tornar a base da língua italiana atual.
Felizmente, o vêneto se manteve vivo a despeito da derrocada política veneziana. Apesar de seu uso e transmissão estarem em risco na própria Itália, o idioma se perpetuou com os imigrantes que se espalharam pelo mundo, por lugares que incluem o Espírito Santo (onde também se fala outra língua europeia ameaçada, o pomerano) e os estados da região Sul. Ao utilizar sua língua para expressar a experiência de vida no meio rural brasileiro e falante de português, os imigrantes do norte da Itália proporcionaram ao vêneto uma vitalidade renovada, dotada de inúmeras novas possibilidades; e contribuíram para a ainda tão subestimada diversidade linguística do Brasil.
Agora que você falou do catalão... "lengua" parece mais c espanholices.. (apesar de saber q o catalão não veio do espanhol!)
ResponderExcluirEsse tema de diversidade do português da pano p manga! Seriamos mais diversos se não tivesse havido tantas politicas coibitivas de Pombal a Getúlio....
E mesmo hoje, com toda a repressão linguística do passado, ainda é notável a variedade! Mas realmente seria bem legal ter hoje um Brasil com regiões falantes de tupi, italiano, pomerano, vêneto e alemão!
ExcluirAhhh, Veneza é um dos meus lugares preferidos no mundo e esse texto me fez morrer de vontade de voltar pra lá <3
ResponderExcluirQue coisa! Tinha certeza de que era um dialeto e ia continuar achando isso se não viesse aqui..hehe
Sabe, tenho ascendência italiana por todos os lados da família, mas nunca fui atrás disso! O máximo que fiz foi dar uma olhada nos registros do Memorial do Imigrante, mas não descobri nada de incrível.. só achei o registro de entrada no Brasil de parte da família (e nem tenho certeza se é mesmo hahaha).
Dá pra perceber que você gosta de Letras mesmo! Mas acho que esse meu plano de estudar na FFLCH vai ficar pra depois, porque a Fuvest não foi nada legal comigo =(
bjs!
Olha, muito provável que o que você tenha ouvido em Veneza seja italiano mesmo! Pelo pouco que sei da realidade do vêneto na Itália, acredito que a preponderância do italiano seja muito forte, ao menos como língua que se ouve na rua.
ExcluirEu também fui atrás de pouca coisa da história da minha família para além disso e do que meus avós contam.
Gosto muito de línguas! Vamos ver o que a vida reserva pro médio/longo prazo... boa sorte pra vc nessa empreitada :) bjo!
Veneza, belíssima Veneza. Muito bom o artigo! parabéns...
ResponderExcluirmeupedepagina.blogspot.com
Obrigado pela leitura, Igor! Abraço!
ExcluirTambém pelo lado materno sou descendente de gente do Vêneto, e com espanto percebi, ainda criança, que o "italiano" que eles diziam falar era tudo, menos "italiano"... Ainda hoje, dentro de casa, falo uma língua adornada com muitas palavras aprendidas com os velhos... Abraço!
ResponderExcluirMarcos S. Pagotto Euzebio